domingo, 17 de abril de 2011

O SEGREDO DE UM CARRO














Será que num mundo como o nosso, em que toda a tecnologia é alardeada aos quatro ventos, e as inovações são o principal motivo para comprar um produto, o que é bastante enfatizado pela propaganda, faz sentido falar em segredo?

Acho que sim e explico por quê. O Novo Uno é um bom exemplo. Lançado em maio do ano passado (2010), ultrapassou expectativas e se tornou o carro mais vendido no Brasil nos dois últimos meses (fevereiro e março), ultrapassando o Gol. Ou seja, sucesso inquestionável, tendo ganhado prêmios como Carro do Ano, da revista Auto-Esporte. Para completar, foi um projeto desenvolvido no Brasil, que consumiu 600 milhões de dólares e durou 3 anos. A Fiat explica que o carro traz um novo conceito, o Round Square, o Quadrado Redondo. Quer dizer, o velho Uno quadradinho ficou arredondado nas bordas. Traz também um novo motor batizado de Evo, abreviatura de ‘Evolução’. Mas isso explica o sucesso?
Novo Uno: Quadrado Redondo


Não! O que realmente leva as pessoas a se encantar e desejar um produto é algo jamais explicado pela própria empresa, pois isso tiraria o mistério, o fator subjetivo, inconsciente, e por isso não admitido pelo lado racional de cada um. Em outras palavras, o que garante o sucesso é o vínculo emocional que se estabelece, e não a tecnologia inovadora. Isso para muitos não é novidade, então a pergunta que se faz é: que tipo de vínculo emocional é esse que foi criado aqui?

O verdadeiro conceito inovador desse carro é ser um brinquedo. O carro-brinquedo tem várias versões e pode vir acoplado de para-choques e para-lamas gigantes, como se fossem de borracha e pudessem ser destacados, e cores berrantes jamais vistas em outros carros. Traz também barras e frisos imensos, puramente estéticos. Tudo salta aos olhos, como se tivesse sido desenhado para crianças bem pequenas. Reforçando a ideia de monta-desmonta, você pode no site da Fiat (também muito colorido) construir o modelo do seu jeito, e a primeira informação é de que já foram montados 1.842.822 carros. Ou seja, as possibilidades de combinações são infinitas. E como o número é muito superior ao efetivamente vendido, podemos concluir que as pessoas entraram lá para montar seu modelo por pura diversão. É uma brincadeira, e de graça. A propaganda, também premiada, dizia: ‘Uno Duni Tê, Salamê Minguê, Sorvete Colorê, o Escolhido foi Você.’ É um carro personalizado, inclusive com os adesivos que se tornaram uma febre, mas ninguém me tira da cabeça que o principal não é ter o ‘seu’ carro, mas o aspecto lúdico (prazeroso) da montagem.
Porta-objetos no teto


Sabe aquela ideia de que o nosso lado criança nunca morre? Esse carro prova isso. Nesse sentido, ter filhos é apenas uma nova oportunidade para viver (ou re-viver) as alegrias da infância. E há outros detalhes: o Novo Uno tem um porta-óculos e um porta-objetos no teto. Como se os engenheiros também tivessem se divertido em colocar acessórios em locais impensáveis e malucos. Tudo isso me faz pensar em homens adultos e muito ricos. Você sabe o que eles fazem quando juntam dinheiro suficiente? Primeiro compram um carrinho, depois um barquinho e depois um aviãozinho. E é claro que vão mostrar o carro, o barco e o avião aos amigos, realizando seus sonhos de infância de ter esses brinquedos de verdade.
Mitsubishi Pajero

Mas o segredo não se esgota aí. Afinal, o ser-humano é complexo, tem muitas facetas a ser exploradas. Um outro aspecto que explica o sucesso é que o Novo Uno parece um ‘jipinho’, ou um SUV, um veículo utilitário, como o Ford EcoSport e o Mitsubishi Pajero. A diferença é que esses carros, maiores, mais altos, mais robustos e com a ideia de combinação de vida urbana e vida esportiva, são muito mais caros. Ou seja, a pessoa compra um carro barato, mas tem a ‘sensação’ de que comprou um carro de outra categoria, portanto com mais status. Mas essa não é a primeira vez que isso acontece. O Corsa, que na sua primeira versão tinha uma cara de peixe morto, teve suas linhas aperfeiçoadas e foi se aproximando do Vectra, carro muito maior, mais possante, mais tudo. A cada nova versão o comprador tinha a sensação de estar mais perto do seu sonho de consumo. Acho até que essa aproximação é feita aos poucos para seduzir o consumidor devagar, como um desnudamento que precisa ser lento, pois se fosse rápido não seduziria. Mas se isso for verdade, nunca será admitido, como eu disse antes.
Antigo Corsa

Corsa Reestilizado


   Como se vê, a tecnologia é importante, mas é superada pelo ‘conceito’ que está por trás, ou na base do produto. E o conceito é extremamente simples. Qualquer pessoa poderia ter imaginado: eu, você, qualquer um. Por isso acho que as ideias, as boas sacadas serão o verdadeiro diferencial em qualquer campo de trabalho. A tecnologia, afinal, é sempre copiada e se espalha muito rapidamente no nosso mundo globalizado.
E se você pensa que eu comprei um Novo Uno, não, não comprei. Na hora da troca deixei aflorar apenas o lado racional. Pelo menos dessa vez.


sábado, 9 de abril de 2011

Malditos Chineses




Não há dúvida de que o maior acontecimento histórico do século XXI é a subida meteórica da China. Ele era previsto, mas o ritmo da expansão do país asiático tem sido maior que o esperado. Isso porque a China cresce em média 10% ao ano. Já é a segunda maior potência econômica do planeta, e ultrapassar os Estados Unidos é só questão de tempo. 15, 20 anos? Não importa. É certo que acontecerá.

Se você imagina que alguns países estão enciumados com isso, engana-se. O ritmo de crescimento da China ajuda todos os outros países a crescer, porque, além de exportar, a China também importa muita coisa – assim como os outros BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) também contribuem para o aumento do comércio mundial. Mas o destaque da China é tão grande que suscita muitas outras dúvidas. Como será este que já pode ser chamado de século da China? Comeremos espaguete todo dia? Iremos correndo aos cinemas para ver os últimos sucessos de Hongwood, ou melhor, Hong-Kong-wood? Devo me matricular já num curso de Mandarim?

É claro que as mudanças históricas não são tão rápidas, mas mesmo assim sobram dúvidas quanto ao futuro:

- Como será a liderança política da China? Interferirá em outros países, como fazem os Estados Unidos? Ou limitará sua influência política aos países da Ásia?

- De que forma uma crise na China seria sentida no mundo? Basta dizer que a maior parte da dívida americana está na mão dos chineses. Teríamos assim as duas maiores potências mundiais afundando juntas. Ah, não quero nem ver.

- O Partido Comunista Chinês sairá do poder? Duvido. Afinal, foram eles que conseguiram essa prosperidade bem capitalista.

Uma coisa é certa: os produtos chineses continuarão invadindo o mundo, o que inclui a minha e a sua casa. Porque são baratos. E isso acontece porque a mão-de-obra chinesa é baratíssima, mesmo se comparada à do Brasil. Muita gente reclama disso, dizendo que as fábricas vão fechar em toda parte. Aí o fabricante resolve abrir uma importadora. E nós vamos continuar comprando produtos de 1,99.

Tudo bem. Só que nos últimos meses eu comprei um despertador e um relógio de parede. O despertador não durou nem uma semana. O relógio de parede durou 6 meses. Adivinhe de onde eram? Se você disse Brasil, errou. E em seguida um mouse que eu havia comprado recentemente também parou de funcionar. E de onde era? Fui ver, pimba! Adivinhe. Tente adivinhar.

Isso me faz pensar em um rádio-relógio da Sony que eu tenho há 13 anos, perfeito. Não que os produtos japoneses sejam todos bons. Mas sem dúvida eu preferiria, ao invés de ter gastado pouco em 3 produtos, ter comprado um único produto bom, pois ao menos agora teria 1 produto funcionando, o que é melhor que zero. Pensando bem, se a disparada meteórica da China depender de mim, eles estão fritos.

Tive uma ideia melhor ainda: se você tem produtos chineses que não funcionam mais, e que provavelmente tiveram vida curta, por que não fazemos uma exposição com eles? Sim, uma exposição que mostrasse o quanto esses malditos produtos chineses são duráveis. Como eles são inúteis, nem precisaria haver um guarda na exposição. Não deixaria de ser uma homenagem à China. Ah, eu gostaria muito. Acho até que poucas exposições seriam tão instrutivas como essa. Comércio também é cultura.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Você Lê Teatro?

A pergunta do título acima pode parecer um pouco estranha. Afinal, teatro não se lê, teatro se vê. Uma ida ao teatro, além disso, é um hábito pouco freqüente. Ler peças de teatro, então, seria uma das últimas atividades culturais imaginadas por você. E, vamos admitir, por 99,99% da população.

A questão é saber por que isso acontece. Uma peça de teatro é geralmente ágil, traz diálogos inteligentes, e é mais curta do que qualquer romance. Ou seja, não se trata de uma leitura difícil. Mas é uma leitura incompleta. O que isso significa? É que feito para ser encenado, o texto teatral não tem longas descrições, nem explica o que está acontecendo. Os personagens têm apenas a sua voz, e tudo deve ser entendido a partir dela. O autor se limita às rubricas, do tipo “Fulano entra em cena”. Sobra para o leitor, assim, o difícil trabalho de imaginar como a cena aconteceria, se os atores estivessem ali. Ou imaginar como seria se fosse um filme.

Mas nada disso é tão difícil. Boas peças podem ser lidas de uma tacada só. A questão é que nunca se criou o hábito de ler teatro. Em qualquer escola, ou universidade, a leitura de peças é rara ou inexistente. E mesmo na Faculdade de Letras da USP (FFLCH), a grande maioria dos professores prefere a análise de poemas, e em segundo lugar de contos e romances. Peças ficam em último lugar. Existem estudiosos como Maria Silvia Betti que dedicam a maior parte do seu tempo à dramaturgia, mas é uma exceção. E com isso o nosso instrumental de análise de peças teatrais é pobre – mesmo entre professores da área de Letras.

No nosso dia-a-dia, contudo, somos consumidores ávidos de dramaturgia – a dramaturgia televisiva, a do cinema e do próprio teatro. Feitas as contas, nenhum outro gênero (poesia ou ficção) alcança um público tão grande. Vivemos assim uma situação paradoxal. O gênero mais consumido é o menos estudado. E por quê? Será que só vale a pena estudar aquilo que é de difícil compreensão? E o que nos é prazeroso -  por exemplo uma comédia – não merece reflexão?

A verdade é que, quando se fala de vida acadêmica, gêneros populares dão pouco ibope. Isso se reflete nos estudos literários e, por conseqüência, em toda a estrutura de ensino. Atualmente os livros didáticos tentam usar os exemplos mais variados, de quadrinhos a notícias de jornal, passando pela MPB, mas ainda assim o teatro fica de fora. Repito: é por falta de hábito, de instrumental de análise. E, com isso, toda a influência que as novelas e filmes têm na disseminação de valores, a força de personagens que mexem com o imaginário da população, tudo isso é menosprezado. E os conceitos lançados por Aristóteles na Antiga Grécia sobre o teatro acabam sendo pouco estudados, e pouco desenvolvidos.

LEIO TEATRO vem corrigir essa falha. Esse livro, presente da minha amiga Lúcia, mostra a importância da publicação – e da leitura – de peças teatrais. Escrito em sua maior parte pelos professores/pesquisadores da Universidade de Brasília, tem no texto de Maria Sílvia Betti um dos seus pontos altos. Mas é preciso lembrar que essa atitude de desdém, digamos assim, em relação ao teatro publicado só vai mudar com uma mudança mais profunda de mentalidade.

Um estímulo para a mudança está no fato de que a leitura de uma peça (em sala de aula, ou qualquer lugar) pode ser muito estimulante para todo um grupo, já que o texto pede uma interpretação. E os que lêem tendem a responder bem à exigência, tornando a leitura em voz alta um acontecimento com alto nível de energia, tanto para ouvintes como para atores, muito mais que a leitura de poemas ou contos. Existem também aqueles que sonham em ser artistas, e que sempre agarram a oportunidade. É, como eu disse, um acontecimento.

Chega de nariz torcido para o gênero teatral – justamente a mais coletiva e dinâmica de todas as artes. O teatro merece estar na sua estante.

P.S. Evidentemente, existem diferenças entre o teatro e o cinema. Mas isso fica para um outro post.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cultura é Tudo, mesmo?



A primeira dúvida a respeito deste blog partiu de um amigo, também professor, Francione Oliveira Carvalho. Suas considerações foram tão interessantes que resolvi postá-las aqui. Sem dúvida, conceitos amplos como ‘Cultura’ e ‘Arte’ sempre terão várias definições. Mas é justamente a discussão sobre essas definições que nos torna mais conscientes, mais ligados. Então, se liga:

“Cultura é tudo? Não tenho certeza. Seria interessante detalhar como compreende o conceito “cultura”, já que desde o seu aparecimento no século XVIII, a idéia moderna de cultura suscita constantes debates.
A palavra cultura tem origem latina e surge nos fins do século XIII para designar uma parcela de terra cultivada. No século XVI, ela deixa de significar um estado (da coisa cultivada), para tornar-se uma ação, ou seja, o fato de cultivar a terra. E somente a partir do meio do século XVI a palavra “cultura” começa a ser aplicada no sentido figurado, como uma faculdade a ser desenvolvida.
Ao longo do século XIX, com a criação da Sociologia e da Etnologia como disciplinas científicas, a reflexão sobre a cultura passa do sentido normativo para o descritivo. Os intelectuais se interessam não em dizer o que deve ser a cultura, mas de descrever o que ela é, tal como aparece nas sociedades humanas.
Apropriando-se da sua reflexão sobre o programa Big Brother, podemos perceber que ele tenta trabalhar a idéia de uma cultura plural, onde cada integrante representaria uma parcela das identidades culturais contemporâneas. Essa idéia de cultura pluralizada, inicia-se apenas no final do século XIX, quando o imperialismo inicia a divisão do globo terrestre (África e parte da Ásia) . Diferentemente do período da colonização (do Brasil, por exemplo), onde o diferente era “acultural”, começa-se a falar das culturas de diferentes nações e períodos, como representantes de códigos específicos.
Nesse sentido a cultura é vista como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. Cultura como forma de expressão e tradução da realidade que se faz de forma simbólica, admitindo que os sentidos conferidos às palavras, às coisas, às ações e aos atores sociais, se apresentam de forma cifrada, portanto, já possuindo um significado e uma apreciação de valor.
Você disse na nossa pequena conversa que pretende utilizar os textos postados para suscitar discussões acadêmicas. Portanto, teorizei um pouco para dizer que senti falta de uma base teórica no seu texto, isso ampliaria um pouco o alcance do que escreve e o tiraria daquele limbo de que “blog” serve apenas para dar pitacos sobre tudo... Ass: Francione Oliveira Carvalho.”

Sem dúvida, essas questões levantadas por Francione são essenciais, a começar pelo fato de que o conceito de ‘cultura’ é histórico. Como se vê, a afirmação “Cultura é tudo” deixa de lado o fato de que certas manifestações culturais são valorizadas, outras não. E por mais que tentemos ser ‘democráticos’ e dizer que aceitamos TUDO como um aspecto da nossa cultura, torcemos o nariz para certas coisas.

E você, leitor, que ‘valores’ coloca nas coisas, como se elas tivessem um preço? Já parou para pensar? O que aceita, e o que rejeita, e do que tem preconceito? Esse talvez seja o melhor caminho para perceber o que até hoje, por condicionamento, por exemplo, nunca considerou como importante. E talvez nem tenha notado...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Desgraça Pouca é Bobagem

O noticiário internacional está repleto de fatos alarmantes. Um noticiário trágico dá lugar a outro ainda mais trágico. Nesse contexto, houve espaço para se divulgar que “inaugurado nesta segunda-feira, o relógio da contagem regressiva para as Olimpíadas de Londres, em 2012, já está quebrado. O cronômetro, em Trafalgar Square, foi desligado”. Um alento para nós brasileiros. Os atrasos, as indefinições, enfim, a incompetência que se prevê para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 não é exclusividade nossa. Os britânicos não foram capazes de fazer um relógio funcionar. Se tivesse acontecido aqui, seria simbólico. E lá, o que significa? Talvez apenas um alívio momentâneo – para nós.

Raciocínios desse tipo parecem guiar o noticiário. Quanto maior a desgraça, maior o interesse, mais se vendem revistas. E o relógio britânico ainda por cima é muito feio. É humano pensar assim? Ver a desgraça alheia nos redime de alguma culpa? Ou então, somos sádicos mesmo?

Alguns fatos me levam a optar pela segunda opção. Não bastasse o rol de desgraças noticiadas, “a Autoridade de Segurança Nuclear da França (ASN) informou que as explosões ocorridas na central japonesa de Fukushima Daiichi atingiram o nível seis de gravidade em uma escala internacional que vai até sete. O Japão, até o momento, classificou os acidentes em nível quatro”. OK, é possível que eles tenham razão. Mas divulgar essa informação quando, obviamente, as autoridades japonesas tentam evitar o pânico, o desabastecimento, o deslocamento em massa da população, serve para quê?

Você que é ser humano que responda. A França, afinal, está bem longe do Japão para se julgar atingida pelo desastre. Ou será que ver circo pegar fogo é a única fonte de emoção em um mundo já bastante pacificado e monótono? Ou talvez eles julguem que têm o dever de informar? O momento atual me lembra o ataque de 11 de setembro. Uma certa histeria permeia os fatos, com a sensação algo apocalíptica de que o mundo está a beira do colapso. Aliás, a Comissão Europeia acaba de usar a palavra ‘apocalipse’ para descrever a situação no Japão. Simpático, não?

Sim, isso é humano. Todas as civilizações imaginaram o fim dos tempos, o fim de tudo, e previram como seria - com água, fogo, meteoros e agora com radioatividade. Está lá na Bíblia. Do ponto de vista científico, trata-se de mais um motivo para não se fazer alarde, pois a principal característica da ciência é sua fria isenção, seu apego à realidade dos fatos – essa sua radical diferença em relação à religião. Pois é. Mas pelo visto até os cientistas são humanos.

Como todos nós vamos morrer um dia, é melhor ir acompanhado. Melhor ainda é antecipar a data e fazer disso um acontecimento coletivo, assim não precisamos pensar que vamos deixar um monte de coisas para trás – coisas que os outros poderiam aproveitar. Humano, sim, demasiadamente humano...






sábado, 12 de março de 2011

Será Que Ele É?


Rodrigão

Já que comecei este blog falando do BBB 11, faz sentido dar alguns toques a respeito deste que é um dos mais importantes programas na história da televisão brasileira.
Não, não tenho tempo de acompanhar as peripécias dos ‘confinados’, dou aula à noite, mas sei de tudo. Em qualquer site na Internet há notícias bastante significativas, do tipo “Fulana se irrita com Beltrano”. Se todos os sites dão a notícia, quem vai negar que é importante? Das novelas fala-se muito menos.
Duas pessoas chamaram a atenção do público. De Rodrigão, pergunta-se: será que ele é? De Maria, pergunta-se: será que ela é? No primeiro caso, gay, no segundo, garota de programa. E o melhor – ou pior – é que provavelmente as perguntas não serão respondidas, ficando à revelia do espectador a resposta. É uma obra aberta, na concepção de Umberto Eco. Aliás, Umberto Eco foi um dos intelectuais que escreveu sobre o BBB, eu não estou sozinho, viu?
A delícia da vida – e desse programa – é nunca se vai ter certeza de nada. Para fazer um paralelo, no resto da dramartugia televisiva (sim, novelas, de novo) a gente não só tem certeza, como já sabe o que vai acontecer. No caso de um personagem mudar sua orientação sexual, isso é avisado antes. No BBB, temos pistas, apenas pistas. Ninguém está se escondendo por mau-caratismo, é que talvez eles mesmos ainda não saibam. Cheguei a ver Rodrigão dando beijos numa bela loira, mas sem vontade nenhuma. Ela disse, ao sair, que já tivera beijos melhores – mas se apressou a garantir que ele não era gay. Foi o que bastou para arder a fogueira das especulações. Quanto à Maria, é a personificação de Helena, de Sonhos de uma Noite de Verão, de Shakespeare. Helena declara seu amor de maneira asfixiante e obsessiva a Demétrio (“desprezai-me, batei-me, esquecei-me, perdei-me, mas, por indigna que seja, permiti-me, ao menos, que vos siga.”). Maria vai além e faz um strip-tease... tirando a calcinha. Bem...

Helena e Demétrio, ou melhor, Maria e Mau-mau.

O segredo está aí. Não basta assistir ao programa, é preciso viver o programa. Sabe o que é pay-per-view?  Tudo são relações. E afinidades. A vida não é assim? Se no começo tudo parece artificial, aos poucos os conflitos se tornam bem convincentes, pois nada é mais natural do que as dificuldades de relacionamento com pessoas próximas, amigos, colegas, família. Pessoas de personalidade indefinida, seres mutantes, aquele amigo talvez interesseiro, o colega que só te cumprimenta por obrigação, antipatias inexplicadas. Como diria Sartre, o inferno são os outros. O telespectador pode dar vazão a seus instintos mais primários, principalmene porque sempre vota contra alguém. Elimina o chato que na vida não pode eliminar.
Na área da Publicidade, existe o Focus Group: um grupo de pessoas se reúne para falar sobre determinado produto. Do outro lado de um vidro, estão os profissionais da empresa, observando. Sabores, embalagem, textura, tudo pode ser avaliado. Mais que isso, porém, a mesma estratégia pode ser usada para detectar tendências, hábitos, comportamentos, direções. As empresas precisam saber com antecedência em que direção orientar seus esforços; o ato de observar é o único que pode trazer um vislumbre dessa coisa terrível chamada futuro, com as mudanças que ele implica.
Deu para entender? Imagino que esses profissionais de ‘tendências’ amem o BBB. Está tudo ali. Mesmo com as reclamações, há novidades. E talvez a maior seja a queda das fronteiras e das identidades. Os limites entre o ser e o não-ser estão embaçados, quase deixando de existir. Será que essa é uma tendência?
E por falar em futuro, quem vai ganhar o BBB? Sabemos que não será o mais inteligente, nem a mais bonita. É o carisma que define o vencedor. E o que é carisma? Algo indefinível, mas que agrada as pessoas, algo que elas desejam ter, algo que elas aspiram. Por isso, vale apostar. Teste a sua sensibilidade. Teste sua percepção. Saiba se está antenado (a) com o momento. Eu aposto, nesta ordem: 1.Rodrigão, 2.Daniel, 3.Paulinha. Duvido que algum outro ganhe o programa. E darei a mão à palmatória se errar. As fichas estão na mesa.

domingo, 6 de março de 2011

O Jeitinho Brasileiro

Pois é. Como tudo na vida, o jeitinho brasileiro pode servir ao bem e ao mal.
O jeitinho, que tanta gente julga a ‘cara’ do Brasil, nada mais é do que um desvio da maneira usual de fazer as coisas, o que geralmente implica a quebra de regras. Não deu para pagar no prazo? Chore, esperneie, diga que foi tirar o pai da forca, quem sabe te deixam pagar sem multa, comovidos com o seu drama.
Isso vale para os políticos. Foi filmado com o dinheiro do povo nas mãos? Uma pequena mudança nas regras do Conselho de Ética da Câmara pode adiar o julgamento para depois do fim do mandato, o que significa que fica tudo por isso mesmo. Conveniente, não?
O jeitinho tem a ver com o ‘levar vantagem em tudo’, lei de Gérson. Ou pode ser explicado assim, na época do Brasil Império: “Aos inimigos, as leis; aos amigos, tudo”. Deu para entender porque as leis não pegam? É comum, num curto trajeto de carro, ser cortado por alguém que faz uma conversão proibida, ou vem pela contra-mão, só um pouquinho. E a vida começa a se tornar impossível, ou no mínimo estressante.
Turistas brasileiros são vistos no exterior com desconfiança. Eles já sabem que os brasileiros vão driblar as regras, por achar que ‘no final dá tudo certo’. Sendo assim, para que aprender e respeitar os costumes locais?  O jeitinho brasileiro é justamente a garantia de adaptação a qualquer cenário, e muitos se orgulham disso. Ir para a Europa e trabalhar ilegalmente é visto como normal. Em Portugal, isso já é um problema endêmico, e o Brasil está exportando ‘guardadores de carro’ para esse país. Na Inglaterra, um guia feito pelo governo para a Olimpíada de 2012 afirma que os brasileiros são folgados, falam alto e sempre se atrasam.
Mas há o lado positivo. É o que mostra a foto acima. Minha amiga Karin fez uma instalação na sua impressora para não comprar os caríssimos cartuchos de tinta. E como tem de imprimir centenas de páginas por mês, calcula que gasta menos de 10% do que gastaria normalmente. Economiza mais de 3.000 reais por ano. Esse é o jeitinho que aprecio: quem quer pagar por tinta como se fosse ouro líquido? Essa esperteza das empresas é que precisa ser combatida, isso sim. Ou seja, a criatividade pode ser nossa aliada. Se essa história fosse uma fábula, a moral seria: O pequeno usa a astúcia para se defender da tirania dos grandes.
Agora, que é difícil imaginar um Brasil nos trilhos com tanta gente roubando e dando um jeitinho, isso é. Fica a dica: a adaptação de impressoras é feita em lojas da Santa Efigênia e não tem nada de ilegal.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

LIXO MILIONÁRIO

  
É hoje! Ou melhor, amanhã.  O Brasil ganha ou não ganha o Oscar?
Basta ter um filme com personagens brasileiros para começar a torcida. Mesmo a diretora sendo inglesa. Mas o personagem central é Vik Muniz, artista aclamado internacionalmente. Se depender de fama, reconhecimento, o filme tem chances, mesmo não sendo o mais cotado.
Na Idade Média, o grande sonho do homem era transformar chumbo em ouro. Hoje, transformar lixo em ouro já é uma realidade - para poucos. Vik Muniz conseguiu a proeza, tirando fotos dos catadores no aterro sanitário e compondo imagens com sucata. Mas basta ver o filme para entender que o verdadeiro tesouro não são as obras em si mesmas, mas o elemento humano que as compõe. O preço da venda dos quadros embute esse ‘custo social’, em uma época em que tanto a questão ecológica quanto a social têm um peso grande na consciência dos compradores.
O maior mérito do filme é esse: mostrar uma comunidade que se formou naquele local, contra todas as expectativas. As pessoas que a compõem têm em comum a postura altiva, orgulhosa mesmo, a despeito de todo o preconceito que sofrem por estarem ali, dividindo o espaço com urubus. As mulheres, por exemplo, insistem que preferem esse trabalho a enveredar pela prostituição. E a plena consciência de que estão ajudando o meio-ambiente com a reciclagem dignifica suas dificuldades. Em outras palavras: o ouro já estava ali, latente, apenas oculto pelos dejetos.
A luta é árdua. E o filme se transforma em uma história de superação – o que, por sinal, combina muito com Hollywood. A melhor cena é a do presidente da Associação dos Catadores, Tião, que vai a Londres acompanhar o leilão do ‘seu’ quadro (o mesmo do poster). O assombro em seus olhos diante dos incontáveis lances que vão tornando a obra cada vez mais cara é antológico. É o momento da transformação. Essa, aliás, é uma das dúvidas levantadas pelo filme: vale a pena tirar as pessoas de seu habitat, levá-las para Londres, deixá-las deslumbradas com um mundo rico e cheio de glamour? Tião disse que pretende ir à festa do Oscar de limusine (veja aqui), e sinceramente não tenho uma resposta.
O ponto fraco do filme é a insistência de Vik Muniz em se apresentar como pessoa pobre, que passou grandes dificuldades até chegar ao sucesso internacional. OK, isso poderia ser dito, mas há uma distância entre ele e os outros pobres do filme. Vik não pertence a essa comunidade, e um indivíduo nunca vai ter a força de um grupo. Além disso, o que passou, passou. Lamúrias sobre o passado não têm nem um décimo da força das imagens do lixão – até mesmo porque é duplamente através das imagens (dos personagens em seu cotidiano e dos quadros feitos a partir deles) que o filme se realiza.
Mas a gente torce. Basta dizer Brasil, a gente está torcendo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Polêmica do Professor de Santos

Um professor de matemática do primeiro ano do ensino médio de uma escola estadual de Santos, na Baixada Santista, está sendo acusado de fazer apologia ao crime por passar aos alunos seis exercícios com enunciados baseados em tráfico de entorpecentes, prostituição, roubo de veículos, assassinato e uso de armas de fogo. Nas questões, o professor pergunta, por exemplo, quantos clientes cada prostituta deverá atender para que o cafetão compre uma dose diária de crack . (Jornal da Tarde, 19/02/2011).
Raras vezes o assunto ‘Educação’ dá manchete de primeira página. Como o professor de Santos não se pronunciou ainda, cabe a nós imaginar o que havia por trás da polêmica. Evidentemente, há muita gente condenando, achando tudo um absurdo. Como podem os puros e ingênuos alunos serem expostos a esse conteúdo? Por essas e outras é que o professor já está sendo indiciado por apologia ao crime.
Mas, cá entre nós, isso é Paulo Freire. Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) indicam que o professor deve adaptar a sua matéria à realidade do aluno. Não era isso que ele estava fazendo? Ele também perguntava sobre roubo de carros, disparos com armas etc. Será que os alunos vivem essa realidade?
Sobram dúvidas. Mas, imaginando o cotidiano desse professor, arrisco dizer que ele não estava fazendo apologia ao crime coisa nenhuma. Esses exercícios podem ter sido, apenas, uma tentativa desesperada (ou revoltada) de capturar a atenção dos alunos. E isso não é nada fácil, como sabemos nós, professores.  É muito provável que os alunos conversem sobre esses assuntos. É possível que estejam próximos dessa realidade. Nem por isso acho que a ideia foi boa. Mesmo que tenha sido uma piada, foi uma piada de mau-gosto. Nenhum professor deveria naturalizar o crime, torná-lo banal. Isso é claro.
Menos claras são as reações das autoridades. Na tentativa de provar que a juventude é defendida, que os jovens estão numa redoma de vidro – à prova de balas – condena-se imediatamente o professor, instaura-se um inquérito. OK. Que tal ir pessoalmente onde moram os alunos e verificar se de fato eles não caminham entre balas perdidas? É sempre mais fácil achar um bode-expiatório do que constatar a precariedade do nosso sistema social. Sai mais barato.
A geleia geral da hipocrisia brasileira impede que possamos avaliar cada situação de maneira imparcial. Mas na matéria do Jornal da Tarde havia o depoimento de pais e alunos defendendo o professor. E por experiência sei que o adolescente não precisa morar no Jardim Ângela para gostar de armas de fogo e violência – basta ver filmes americanos. Falta ainda a informação de que aquelas perguntas polêmicas já circulavam na Internet. Essa é exatamente uma das estratégias que já usei em sala, usar textos e vídeos que se tornaram populares.

Como se vê, condenar é fácil, compreender é sempre mais difícil. Mas se você é um dos que acham que os jovens devem ser poupados desses temas, que tal exigir que haja mais investimento na escola pública? Que tal exigir que a escola seja mais comprometida com a própria realidade, no sentido de melhorá-la? Para isso, é claro, não basta fazer problemas do tipo: “Todos os dias cada aluno trouxe uma maçã para a professora. Quantas maçãs ela terá comido no fim do mês?” Porque a resposta será uma grande indigestão.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Educação Derreteu













Pode o ruim ser pior que o péssimo?
Se você leu o post abaixo, vai entender. Eu estava procurando uma vaga no ensino público, depois de ser enxotado de uma escola do Estado, aqui na Vila Madalena. Fui para o ensino Municipal. Fizeram o cadastro, mas dias se passaram e nada.

Insisti. Perguntei. Telefonei para 1.537.489 pessoas. A culpa é do “sistema”. O cadastro da prefeitura está junto com o do estado (com minúscula), e isso depende de o sistema “rodar”. Quer dizer, não depende de alguém que tenha boa vontade, depende de uma Entidade Superior que consiga dar o tranco inicial no sistema, assim como Deus criou a noite e o dia fazendo a Terra girar.  Mas como quem tem boca vai à Roma, descobri que haviam transferido o pequeno para outra escola estadual, bem distante. Sem me perguntar. Sem avisar. Sem dar uma pista. Ou seja, nunca conseguiríamos a vaga, porque o sistema indicava que ele estava matriculado. É preciso dizer mais alguma coisa?
Não acho mais que seja desrespeito. Acho que o sistema de Educação no Estado derreteu. Deve ser isso.  Passou para o estado líquido. E agora deve estar evaporando.
A esperança é que a rede municipal possa incluí-lo. E tudo indica que o ensino municipal de São Paulo é melhor do que o estadual. E por que seria? Acho que pela alternância de partidos no poder. Sim. Só pode ser isso. A alternância deu algumas chacoalhadas e a coisa melhorou. Não encontro outra explicação para o fato de o Ensino Estadual ter derretido. Amém.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Educação sem Educação

A Educação Paulista anda totalmente sem educação. Vejam só: por razões que não importa explicar agora, tenho um filho que saiu da escola particular e foi para a pública.
Marinheiro de primeira viagem, não esperava que a escola pública fosse um prodígio de qualidade, claro. Mas também não esperava tanto descaso. A matrícula foi efetuada, os documentos foram entregues, a foto, e o que aconteceu no primeiro dia de aula? Informaram-me que não haviam formado turma. Ou seja: vá procurar vaga em outro lugar. No dia em que as aulas começaram.
E a culpa é da burocracia. Porque a Secretaria Estadual de Educação determina que exista um mínimo de 25 alunos por sala, porque a Secretaria decide se a turma vai abrir ou não, porque a Secretaria... enfim, suponho que a Secretaria Estadual de Educação também determine que ninguém seja avisado se vai abrir turma, que nenhum telefonema seja dado, que pais não possam procurar vaga em outra escola com 2 dias de antecedência, pois foi isso que aconteceu. Mas eu tenho certeza de que, se perguntasse diretamente para a Secretaria de Educação, a responsabilidade seria ainda transferida para outra instância. Porque essa é a essência da burocracia: a existência de um poder inalcançável, que paira sobre a cabeça de todos e justifica todas as desgraças, os deslizamentos, o desmando, a desorganização, o desprezo enfim pelas necessidades humanas mais óbvias. DES como se pode perceber é um prefixo latino que indica falta, oposição, negação: DES-respeito total.
E tudo isso vem de um governo que... bem, todos sabem que é o mesmo partido que governa o Estado há séculos. O que me faz concluir que a acomodação, a aceitação do inaceitável também faz parte da educação do brasileiro. Não é novidade que a educação pública, pelo menos aqui em São Paulo, é péssima. Alunos frequentemente não sabem ler – e entender – uma notícia de jornal. E o que foi feito para mudar isso? Quem se mobilizou?

Isso é um desabafo, sim. Por mais que soubesse, não imaginava que o primeiro contato direto com a educação pública seria tão ruim. E pelo nosso histórico, fica difícil ver alguma luz no fim do túnel... Não sei ainda qual a solução, nem para o meu caso particular, muito menos para o coletivo. Quem tiver alguma palavra positiva para dizer que a diga.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Elas Encantam ou Desencantam?

Olhe para a foto ao lado. Preste atenção, pois quando você for velhinho, ou velhinha, ela será novamente publicada como símbolo de uma mudança importante. Pela primeira vez na História, os dois principais países da América Latina terão sido governados por mulheres. E daí? pergunta você. Daí que há menos de 10 anos isso teria sido impossível.
Minha tese é simples: sem a constante influência dos movimentos sociais que nas últimas décadas lutaram pelos direitos das minorias, isso não teria acontecido. Some-se o fato de que os Estados Unidos têm, também pela primeira vez, um presidente negro. Coincidência? Justamente no país em que o racismo teve uma feição separatista e violenta? É sabido que o movimento em prol dos direitos dos negros nos EUA foi pioneiro. Coincidentemente, o movimento feminista com mulheres queimando sutiãs aconteceu na mesma década (anos 60). Mas foi preciso que a ideia de igualdade de direitos e a mensagem anti-preconceito fossem marteladas por décadas até serem assimiladas. (Falo bastante sobre isso em meu livro Preconceito em Foco). A  semente foi plantada, germinou, e os frutos puderam ser colhidos.
Mas... por trás dessas mulheres havia um homem. Não é demérito.  Mas é fato. Elas foram conduzidas. No caso de Cristina, até pior, pois o homem era seu marido – que seria o verdadeiro governante. Então não houve avanço? Muita gente criticou a forma como o processo se deu, concluindo que independência feminina, de fato, não havia nenhuma. Para mim, porém, isso apenas demonstra a capacidade que tem o ser humano de adaptar, conciliar, acomodar, sem necessariamente destruir. A ideia de uma mulher ‘capaz’ vem acompanhada da influência ou ascendência masculina (machista, portanto) que garante uma  continuidade entre o novo e o velho. Temos o novo sem ruptura. E a verdade é que não estamos em um momento revolucionário. Barak Obama, por sinal, traz a mistura de etnias em seu código genético, indicando, pelo menos em tese, o gene da conciliação.
O ser humano é assim, fazer o quê? Mulheres realmente independentes (o primeiro exemplo que me vem à cabeça é Marta Suplicy) tendem a causar antipatia, oposição. Outra política que me vem à cabeça, Roseana Sarney, tem a onipresente figura do pai L como avalista de sua trajetória.
É preciso se conformar. E as dúvidas no caso de Dilma não estão relacionadas à sua capacidade administrativa – nem mesmo a oposição levantou essa bandeira. A dúvida diz respeito à atuação política, à capacidade de ser uma líder reconhecida e votada como tal. Também é preciso lembrar que, mesmo nos países ricos, a presença de mulheres no cargo máximo é ainda exceção. O melhor exemplo é Margaret Thatcher, mulher solitária entre líderes homens. Mas isso aconteceu justamente na Inglaterra, país forjado sob a liderança de mulheres fortes, como a rainha Vitória, que governou por mais de 60 anos. A combinação das palavras MULHER e LÍDER é rara.
Dilma sabe de tudo isso. Durante o seu primeiro mês, andou tateando e se escondendo. Presente na tragédia no Rio,  parecia procurar o tom certo, a expressão certa, como se estivesse pensando: “O que um governante compromissado com seu povo faz diante da catástrofe?” O tom pesaroso, o cenho franzido foram a resposta. Mas imagino que haverá ainda momentos de hesitação.
Na semana passada, o encontro com a presidente argentina foi o momento em que, pela primeira vez, ela parecia estar à vontade. O rosto perdeu a rigidez habitual. É que em muitos aspectos ela tinha diante de si, pela primeira vez, uma igual. É compreensível. A mudança foi tão evidente que eu logo pensei: “Dilma desencantou”. Até que enfim. Torço para que o encantamento produzido pelo seu mentor não dure muito. Prefiro a autenticidade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Chore para o Céu: os Castrati


Você se lembra do belo filme Entrevista com o Vampiro, com Tom Cruise e Brad Pitt? A novidade é que a autora do livro, Anne Rice, não faz apenas histórias com seres das trevas como vampiros e bruxas. Em Chore para o céu (Cry to Heaven), ela descreve o mundo dos eunucos do começo do século XVIII na Itália, portanto trata-se de um livro historicamente fundamentado, fruto de longa pesquisa. É de tirar o chapéu, numa época em que todo mundo usava chapéu.
Imagine um ser que não era considerado homem nem mulher. Situação muito vantajosa em certos aspectos, pois sua sexualidade estava aberta a todas as possibilidades, mas desvantajosa também, pois eram seres à margem dos rituais sociais restritos aos ‘normais’. Uma mulher podia levar um eunuco a tiracolo, e isso seria considerado natural para uma amante das artes. Se de fato ela amaria as artes ou o corpo infértil – e seguro – do seu amigo isso ficaria apenas nas entrelinhas. Os eunucos eram, em suma, adorados pela sua performance no palco da ópera, mas ainda assim, marginais.
Li o livro em inglês, presente do meu amigo N. Imagino que em português também seja possível apreciar o estilo contido, descritivo e ‘trabalhado’ do original. O enredo é cativante.  Uma das marcas registradas da Anne Rice é o erotismo, em particular o homoerotismo. Isso deve afugentar muitos leitores nos EUA, sempre atentos aos ‘desvios’, mas ela não parece disposta a abandonar esse pendor. Os críticos vêem nela uma tendência para o sombrio, o estranho, para os sentimentos mais pesados, e nesse contexto as descrições sexuais são uma parte inseparável do todo. Ora, sejamos francos: enquanto os moralistas rotulam cenas sexuais de “apelativas, pornográficas”, outros encontrarão nessas cenas o seu maior divertimento. Quanto a mim, acho que pelo ineditismo todos os detalhes dessa singular condição – os castrati – são fonte de grande curiosidade e indispensáveis. A sexualidade, um dos ‘detalhes’ mais importantes, não poderia ser deixada de lado.
Castrati eram meninos que tinham sua masculinidade ‘cortada’ numa idade tenra. Isso quer dizer: o saco escrotal era ‘esvaziado’, gerando alterações hormonais, mas continuavam tendo um pênis. Sua voz não engrossava, e ficavam ainda mais altos do que homens normais, com braços mais longos, porque sem hormônios produzidos pelos testículos (testosterona) a ossificação não enrijece como normalmente ocorre.  Seus corpos eram muito flexíveis, o que incluía a caixa toráxica.
Contar o enredo de um livro ou filme é um pecado mortal. Como quero ir para o céu, vou apenas dizer três coisas. A Itália mostrada no livro (em 1725) era ainda formada por cidades-estado independentes como Nápoles, Veneza, Florença, Roma. Ou seja, a Itália ainda não existia, a unificação só ocorreria em 1861. O que me faz pensar, vejam só, que o Brasil é um país mais antigo que a Itália!! Não é incrível?
Outra é que o livro tem tudo a ver com a literatura gótica que fazia sucesso naquela época. Não há nada de sobrenatural na história, mas a atmosfera de mistério, aflição e terror que prevalece nos remete à recusa dos ideais iluministas e racionalistas que estavam sendo difundidos. Isso tem tudo a ver com as outras obras de Anne Rice, sempre muito medievais em sua concepção.
E quanto às muitas cenas de sexo, bem, existe nelas uma qualidade insuspeita. Elas representam, para o personagem principal, uma progressiva e irreversível libertação. E a autora consegue transmitir muito bem o alcance e o significado dessa liberdade: significa abandonar o conforto de um sistema de pensamento feito de pré-conceitos arraigados em prol de um vácuo – sim, um vazio - momentâneo onde, depois, novas sensações e sentimentos podem surgir, uma autêntica conquista para o personagem. Há uma vertigem nessa passagem. Vertigem, no entanto, extremamente recompensadora. Se você não tem medo de altura, leia.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Velho e Bom Talento

A novela começou e uma outra novela começou: a novela da queda de audiência.
A história se repete: o Ibope da atual novela “das 8” da Globo, Insensato Coração, se comparado ao da anterior, é menor. O Ibope de terça é menor que o de segunda, o de quarta é menor que o da terça e assim por diante. É uma descida sem fim que já dura anos.  O inferno é o limite.
Cá entre nós, acho compreensível: a trama é tão ousada que o público não a assimila. Vejam só: um casal se apaixona durante o seqüestro de um avião. Ele, o mocinho, assume o controle da nave e salva a todos. Ela, a mocinha, o beija. E tão forte é a paixão que ele (escândalo!) abandona a noiva às vésperas do casamento. E, mesmo assim, serão separados pelo vilão da história. Francamente, o público não está preparado para tanta inovação, tantos sentimentos intensos e contraditórios. É perfeitamente compreensível que prefiram assistir aos gays do Big Brother, que apenas ficam tomando banho de piscina e fazendo intrigas. Pelos menos, eles não abandonam a noiva no altar.
Sobra-nos então apostar no conhecido e bom talento de Natália do Valle. Ela se especializou em fazer mulheres elegantes, muito bem de vida, mas profundamente insatisfeitas. Seu olhar é tão distante, tão em-busca-de-algo-indefinível que não dá para tirar os olhos da tela. E o rosto continua tão belo quanto antes. Quem se lembra de Água Viva, de 1980? Ela podia muito bem interpretar a namorada dos ‘filhos’ marmanjos.
Destaque também para Débora Secco, por sua inegável veia cômica, Camila Pitanga, pelo equilíbrio da composição, e Ana Lúcia Torre, que faz a tia mexeriqueira. E todos esses são velhos papéis que elas já fizeram antes. Se não há desafio, há a possibilidade de aperfeiçoar e dar novas tonalidades ao que já era bom.
Quanto aos homens... vamos esperar para ver. E para não dizerem que tenho má vontade, a construção dos vilões da novela é notável. Não começam fazendo maldades. Vão aos poucos acumulando energias para convencer a si próprios e ao púbico de que não havia outro jeito. É, ao longo do tempo acabamos nos convencendo de que a ruindade é inevitável...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Tamanho é Documento?

Sou um admirador da Apple. Mas, ao contrário dos aficcionados por gadgets, não corro a comprar a última novidade, como o IPad, que deve ser ótimo. Ocorre que minhas poucas experiências com os IProducts  foram sempre positivas. Um simples IPod que tenho há alguns anos resolveu vários problemas ocupando muito menos espaço que seus antecessores.
Meu IPod Nano original é a 3ª geração. Uso-o há mais de 3 anos. E, acreditem se quiser, até hoje não deu nenhum problema, sendo usado diariamente. Um belo dia, e foi um dia triste, eu o perdi. Passei o dia procurando, quando recebi um aviso: estava com os seguranças da faculdade, fora encontrado junto ao portão. O pobrezinho havia caído quando abri a porta do carro, ficou lá o dia todo, foi amassado por carros que passaram por cima  ̶  e continua funcionando normalmente.
Os problemas resolvidos: por causa doCD player (com frente destacável), tive meu carro arrombado pelo menos seis vezes. Instalei um amplificador, que fica escondido, e conecto-o ao IPod. O som é ótimo, e nunca mais encontrei meu carro coberto de vidro quebrado. O aparelho anterior era um MP3 player – que pela sua dificuldade de manuseio nem poderia ser considerado um similar. O IPod também substituiu os desajeitados CD players ‘portáteis’ que usava para dar aulas de inglês. Basta levar duas caixinhas de som, e pronto. E vídeos podem ser baixados e assistidos em sua tela.
Acabo de ganhar um novo IPod Nano do meu amigo Robert. Que, comparado ao anterior, é uma versão em miniatura. Aí surge a questão: por que reduzir o que já era pequeno?
Há alguma coisa mal explicada na miniaturização dos eletrônicos. Não há dúvida de que o menor é mais prático, mais leve, mais barato. Mas suspeito que seja o status agregado que lhe dá valor. Tudo começou com os japoneses. Depois da segunda guerra, eles se especializaram na miniaturização de eletrônicos, e foi justamente aí que o Japão passou a ser a segunda potência do planeta. Os nipônicos se tornaram modelos a ser seguidos. E a verdade é que ainda estão na liderança desse movimento.
Hoje, isso tem o nome de Nanotecnologia. Trata-se de uma possibilidade já imaginada em 1956 pelo Nobel de Física Richard Feynman. Ele estimou que o limite das miniaturas seria o de componentes um pouco maiores do que um átomo.  E nanômetro é justamente a unidade de comprimento um milhão de vezes menor que o milímetro (o que é pouco maior que um átomo). Nanotecnologia tem a ver com tecnologias baseadas em componentes que têm entre 1 e 100 nanômetros. Ou seja, hoje já existem componentes, ou partes deles, do tamanho de alguns átomos.

Mas nada disso me convence que o último IPod é melhor do que os primeiros. OK, nos admiramos ao ver algo um pouco maior que uma moeda de 1 real conter 16 Gigabites de memória e ainda servir como uma pequena televisão. Além disso, tem rádio e funções inovadoras. A parte de trás tem um clipe que serve para prendê-lo a qualquer parte da roupa. Mas perdeu a ‘roda clicável’ que permitia o controle exclusivamente com o tato. Agora, não. É preciso olhar bem a sua tela multi-touch para ver onde clicar. E por isso apareceram botõezinhos de metal na parte superior. A miniaturização, como se vê, pode dificultar a manipulação de um objeto – o que num carro é perigoso. Mas alguém vai acreditar nisso? Acho que não. Logo nos tornaremos habitantes de Liliput e talvez um gigante nos devore.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As Viúvas do Belas Artes

“O Belas-Artes vai fechar!”  O prognóstico foi recebido como sentença de morte de um parente próximo e querido. Mas, como eu não faço parte da família, fico quieto. Afinal, a qualidade de projeção das salas está aquém do desejável, portanto...
Concordei com Tony Góes, que não viu motivo para tanto drama. Mas mudei de opinião quando fui ao cinema. O público, em comoção, faz filas imensas que tomam a calçada. Lenços são necessários. A retrospectiva de “clássicos”, reunidos não se sabe com qual critério, tem sessões lotadas. Até O Encouraçado Potenkim, filme de 1925, lotou uma das maiores salas, a Cândido Portinari. E cópias mal conservadas são vistas com carinho e nostalgia. Muitos lembram quando os filmes foram lançados e o que significaram, tempos atrás.
É um fenômeno interessante. Ou ainda: instigante. Não são apenas os velhos freqüentadores que fizeram passeatas e abaixo-assinados e estão tentando tombar o cinema. Minha sobrinha Luiza, de 15 anos, quer ir ao Belas Artes, “porque vai fechar”. A tentativa do processo de tombamento, que acontecerá hoje mesmo, na Câmara Municipal, também gera dúvidas: é possível tombar, não o prédio em si, que poderia ser reformado, por exemplo, mas o serviço ali oferecido? Até onde eu saiba, não.
O que chama a atenção é que os espectadores de cinema, tão relegados à passividade, pois não interagem com os artistas como o público de teatro, tenham se transformado nos protagonistas desse enredo. Como em O Encouraçado Potenkim, não é o líder revolucionário, mas o povo que toma as rédeas e muda o curso da História. Nesse caso, uma história de amor. Pelo cinema. Sem dúvida, daria um filme.
P.S. Pelas últimas notícias, o processo de tombamento vai ser iniciado, sim. Só espero que o filme não vire novela.

domingo, 16 de janeiro de 2011

BBB 11

Mais um BBB? espantam-se os críticos. Normal. Na televisão existe espaço para tudo. Só acho que se o BBB chegou à 11ª edição, todos os que apostavam no desgaste da fórmula e anunciavam o seu fim, anos atrás, devem procurar rapidamente outro discurso para posar de inteligentes.
Ouvir que o BBB é um programa sem conteúdo me faz rir. E será que as novelas têm mais a oferecer? Elas têm ótimos artistas, ponto. Mas conteúdo... O esquema amor-impossível, separação-do-casal, casamento-com-a-pessoa-errada e reencontro-final, com alguns assassinatos no meio, de tão manjado, não convence nem as moscas que pousam sobre a televisão.
Acredito que a fórmula do BBB está menos desgastada que a das novelas e explico por quê. O BBB conseguiu ser uma fusão de gêneros televisivos. São eles: a própria novela, o programa de auditório, a gincana competitiva, as videocassetadas, além da interatividade que nenhum desses programas oferece, sem contar o direito à torcida, como no Brasileirão. E há outras razões:
Imprevisibilidade: digam o que disserem, no BBB não há um esquema previsível de intrigas e desfecho: tanto o Mocinho como o Bandido podem vencê-lo.
Tempo real: chamado de reality show, com justiça, pois a realidade pode invadir o programa a qualquer momento, como ocorreu na última semana, quando o mecanismo utilizado para a prova do líder falhou e a Globo interrompeu-a. Pedro Bial ironizou a situação, mas não conseguiu esconder o nervosismo. Chamou os comerciais, que não entraram, e completou com um patético: “Recebo ordens, assim como vocês”. E o que sente o espectador, diante das falhas da Globo? Suspeito que esse seja o maior divertimento.
Laboratório humano: no BBB há, até certo ponto, um autêntico laboratório de relações humanas, com destaque para novíssimos comportamentos e identidades sexuais. Quando é que, nas novelas, houve um transexual? Lembro-me que, há muito tempo, Maria Luísa Mendonça fez uma hermafrodita — o que foi tachado de mau-gosto. Agora, todos estão se perguntando como se comportará a transexual Ariadna, e, caso ela se envolva com um dos homens da casa, milhões de pontos de interrogação vão piscar em todo o Brasil. Laboratório tem a ver com experiência, que significa fazer o que não foi feito antes. No BBB, isso acontece sem os estereótipos ou o politicamente-correto da teledramaturgia.
O primeiro BBB, no entanto, não foi o BBB. Foi a Casa dos Artistas, do SBT, que atingiu recordes de audiência e mostrou que esse era o caminho das pedras. Mas pelos direitos autorais, o BBB ficou com a Globo, que pode até ter aprendido algumas coisas com a incursão do SBT. Lá, aperfeiçoaram uma técnica que Serguei Eisenstein descobrira muito tempo antes: qualquer cena filmada, por mais banal que seja, tem seu significado completamente alterado quando da inclusão de uma trilha sonora. Sem a música, não haveria romance, não haveria romantismo. A competente Laura Finnochiaro percebeu isso, e fez tão bem seu trabalho que até CDs com a trilha sonora do programa foram lançados.
                BBB tem, em suma, os ingredientes para mobilizar a atenção do público e provocar acaloradas discussões. É pouco?