
Agora eu vou ser linchado. Moralmente ou talvez até fisicamente. Mas como é um assunto que já esfriou, resta a esperança de que as pessoas consigam ver o caso à distância que o tempo permite. Estou falando do Atirador do Realengo.
Ao cometer seu ato insano, o Atirador se uniu a uma galeria de assassinos célebres: Suzane Richthofen, o casal Nardoni, o atirador do shopping em São Paulo (alguém se lembra?), e o agora ressuscitado Abominável Pimenta das Neves. As perguntas que tenho me feito, desde então, com certo incômodo, são as seguintes:
1. Deve ele ser colocado na mesma categoria dos outros assassinos?
2. E, já que foi enterrado como indigente, pois o corpo não foi reclamado por ninguém, merecia um enterro ‘normal’? Você pode responder?

Sei que as pessoas, todas, devotam a esse estranho personagem desprezo e rejeição. Eu, no entanto, não consigo desprezá-lo como desprezo os outros assassinos citados. Um pouco de pena, um pouco de perplexidade, não sei, acho que dentro de sua loucura ele teve, ainda, lampejos de consciência e de dignidade. A covardia, sim, estava lá, como no caso dos outros assassinos, e a crueldade, mas ele não estava imbuído de um egoísmo atroz. Os outros queriam ter um ganho imediato, mesmo que esse ganho fosse apenas emocional, e não pareceram arrependidos. Para se ter uma ideia, o Abominável Pimenta das Neves, dias depois de assassinar a namorada e confessar o crime, ainda a acusava de ser aproveitadora, entre outras coisas. Estava movido por uma paixão. Isso é compreensível. Mas não compreendo como, depois de tanto tempo, ele ainda não consiga se distanciar do ato que cometeu, perceber o prejuízo causado a todos os envolvidos, e se arrepender. Não. A prova é o número de recursos apresentados, a recusa em pagar pelo crime. Mas finalmente ele foi para a cadeia. Espero que lá apodreça.
O caso de Suzanne Richthofen é pior, pois a mocinha, mesmo sendo obrigada a confessar o crime, continuou movendo céus e montanhas para ter direito à herança dos pais assassinados, esse o seu maior objetivo. Arrependimento? Nenhum. Os Nardoni são um caso à parte. Não se sabe se eles se defenderam com convicção por pensar nos filhos, mas durante todo o tempo foram capazes de dissimular muito bem, mostrando essa faceta tão desprezível do ser humano que é a falsidade.
Para quem tem raiva do atirador do Realengo eu poderia dizer o seguinte: a pior pena que existe no mundo é a execução – morte – do condenado. E seu ato já previa isso, tanto que ele deixou instruções para as cerimônias religiosas e o enterro. Ou seja, nesse caso, o castigo já estava previsto na ação assassina. Tudo foi planejado, divulgado na Internet, mostrando que seu objetivo maior era SER OUVIDO. Esse é o lado mais trágico e que me toca: o ato mostra que muitas vezes é difícil ser ouvido, ter nossa dor reconhecida pelos outros. Ele declarou que tudo foi por causa do bullying que sofreu. Será verdade, ou delírio de um desequilibrado?
Depois de uma tragédia, todos procuram o ‘culpado’. Volta-se a falar de um referendo para proibir o porte de armas, mas poucos parecem dispostos a se lembrar daquela época em que defenderam esse direito, e que o preço a pagar pelas armas é ter algum maluco que às vezes sai atirando. A culpa, enfim, é algo mais amplo, inerente à sociedade. E justamente pela falta de culpados, começaram a levar mais a sério o que o Atirador disse a respeito do bullying, tanto que muitas matérias sobre o tema foram publicadas desde então. Afinal, talvez ele tivesse alguma razão. Mas isso também é trágico. Ele alcançou seu objetivo (e talvez tenha sido o único assassino a ter alcançado), mostrando que para a sociedade pensar com seriedade em um problema é preciso um ato trágico de grandes proporções.
Entre tantas perplexidades, o cadáver ficou lá, esquecido. E se você desejou que ele fosse jogado num esgoto e devorado pelos urubus, devo dizer que o mesmo ódio estava presente naquele ato assassino, e que o ódio não seria capaz de curar o ódio. Não se trata de justificar, e nem mesmo de explicar. Trata-se de reconhecer um direito. E reconhecer que este caso envolve toda a sociedade em uma dimensão maior do que os outros. Jogar a culpa apenas no Atirador é cegueira. Isso me lembra a antiga peça grega
Antígona. Como se sabe, ela foi condenada à morte por ter enterrado o irmão, considerado um ‘traidor’ e não merecedor dos rituais religiosos. 2.500 anos depois a mesma situação acontece. O traidor não merece enterro. Me chamou a atenção o fato de que ele tinha uma família adotiva, que nada fez. Ora, eles podiam estar com medo, mas quem acusaria alguém de tomar as providências legais para um enterro ‘normal’? Esse fato me chamou a atenção, porque nem mesmo a família estava disposta a cuidar do morto . Ou seja, a solidão – dor – do atirador, que não era ouvido, parece ter sido bem real...
O espectador que vê Antígona concorda, é claro, com sua atitude, e minha posição é a mesma. Não se pode negar o direito de ser enterrado a ninguém. Só para efeito de comparação, os outros assassinos tiveram o direito à plena defesa, e ainda terão o direito à sua vida, depois de algum tempo. Comparativamente, isso sim é muito mais injusto e revoltante. Guilherme de Pádua, por exemplo, deve estar por aí, levando uma vida relativamente normal. Se alguns monstros podem circular livremente, e até contar com a simpatia de outros, por que deveríamos negar sepultura aos mortos? Pois eu o enterro na minha consciência. Que descanse em paz.