Você se lembra do belo filme Entrevista com o Vampiro, com Tom Cruise e Brad Pitt? A novidade é que a autora do livro, Anne Rice, não faz apenas histórias com seres das trevas como vampiros e bruxas. Em Chore para o céu (Cry to Heaven), ela descreve o mundo dos eunucos do começo do século XVIII na Itália, portanto trata-se de um livro historicamente fundamentado, fruto de longa pesquisa. É de tirar o chapéu, numa época em que todo mundo usava chapéu.
Imagine um ser que não era considerado homem nem mulher. Situação muito vantajosa em certos aspectos, pois sua sexualidade estava aberta a todas as possibilidades, mas desvantajosa também, pois eram seres à margem dos rituais sociais restritos aos ‘normais’. Uma mulher podia levar um eunuco a tiracolo, e isso seria considerado natural para uma amante das artes. Se de fato ela amaria as artes ou o corpo infértil – e seguro – do seu amigo isso ficaria apenas nas
entrelinhas. Os eunucos eram, em suma, adorados pela sua performance no palco da ópera, mas ainda assim, marginais.
entrelinhas. Os eunucos eram, em suma, adorados pela sua performance no palco da ópera, mas ainda assim, marginais.Li o livro em inglês, presente do meu amigo N. Imagino que em português também seja possível apreciar o estilo contido, descritivo e ‘trabalhado’ do original. O enredo é cativante. Uma das marcas registradas da Anne Rice é o erotismo, em particular o homoerotismo. Isso deve afugentar muitos leitores nos EUA, sempre atentos aos ‘desvios’, mas ela não parece disposta a abandonar esse pendor. Os críticos vêem nela uma tendência para o sombrio, o estranho, para os sentimentos mais pesados, e nesse contexto as descrições sexuais são uma parte inseparável do todo. Ora, sejamos francos: enquanto os moralistas rotulam cenas sexuais de “apelativas, pornográficas”, outros encontrarão nessas cenas o seu maior divertimento. Quanto a mim, acho que pelo ineditismo todos os detalhes dessa singular condição – os castrati – são fonte de grande curiosidade e indispensáveis. A sexualidade, um dos ‘detalhes’ mais importantes, não poderia ser deixada de lado.
Castrati eram meninos que tinham sua masculinidade ‘cortada’ numa idade tenra. Isso quer dizer: o saco escrotal era ‘esvaziado’, gerando alterações hormonais, mas continuavam tendo um pênis. Sua voz não engrossava, e ficavam ainda mais altos do que homens normais, com braços mais longos, porque sem hormônios produzidos pelos testículos (testosterona) a ossificação não enrijece como normalmente ocorre. Seus corpos eram muito flexíveis, o que incluía a caixa toráxica.
Contar o enredo de um livro ou filme é um pecado mortal. Como quero ir para o céu, vou apenas dizer três coisas. A Itália mostrada no livro (em 1725) era ainda formada por cidades-estado independentes como Nápoles, Veneza, Florença, Roma. Ou seja, a Itália ainda não existia, a unificação só ocorreria em 1861. O que me faz pensar, vejam só, que o Brasil é um país mais antigo que a Itália!! Não é incrível?
Outra é que o livro tem tudo a ver com a literatura gótica que fazia sucesso naquela época. Não há nada de sobrenatural na história, mas a atmosfera de mistério, aflição e terror que prevalece nos remete à recusa dos ideais iluministas e racionalistas que estavam sendo difundidos. Isso tem tudo a ver com as outras obras de Anne Rice, sempre muito medievais em sua concepção.
E quanto às muitas cenas de sexo, bem, existe nelas uma qualidade insuspeita. Elas representam, para o personagem principal, uma progressiva e irreversível libertação. E a autora consegue transmitir muito bem o alcance e o significado dessa liberdade: significa abandonar o conforto de um sistema de pensamento feito de pré-conceitos arraigados em prol de um vácuo – sim, um vazio - momentâneo onde, depois, novas sensações e sentimentos podem surgir, uma autêntica conquista para o personagem. Há uma vertigem nessa passagem. Vertigem, no entanto, extremamente recompensadora. Se você não tem medo de altura, leia.

Antonio, comecei a ler a versão em inglês que te falei que tenho... assim como os demais livros dela - em inglês - trata-se de uma leitura até light, mas quando a mulher começa a traçar perfis e descrever cenários "o bicho pega". Mas é exatamente esta qualidade de Anne Rice que faz de mim um grande admirador. Nas obras das bruxas Mayfar ela te transporta para New Orleans de séculos passados e a leitura torna-se uma verdadeira viagem no tempo. Vou ler Cry to Heaven e depois mando minhas observações.
ResponderExcluirAbraço: your friend Money.
Oi professor.
ResponderExcluirAcho que Anne Rice depois de Bram Stoker é a melhor escritora de histórias vampirescas.
O senhor está sabendo que ela vem ao Rio neste ano?
Estou torcendo para que venha para SP também.
Sou o Jose Eduardo seu aluno de hotelaria 1º semestre.
Se o senhor quiser dar uma olhada http://eduardodumbledore.blogspot.com/ está meio desatualizado.