quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Mistério dos Sacos Amarelos

Você viu ou fui só eu?
Eles estão espalhados em todas as esquinas e calçadas. Sacos amarelos, cheios de uma aparente mistura de folhas e outros itens não identificáveis. Logo concluí: Só pode ser o Papai Noel que andou depositando os seus sacos que, para inovar, não são mais vermelhos. Papai Noel também é fashion. Quando chegar o Natal, pensei, ele vem e distribui os presentes.
Mas o Natal passou e nada! Os sacos continuam atulhando as calçadas. Bom, aí virou mistério mesmo. Me informaram que esses sacos são dos varredores de ruas. E por que o lixeiro não os levou? Aparentemente, porque são empresas diferentes, os varredores e os lixeiros. E os sacos continuam nas calçadas já há mais de dez dias. Seria apenas mais uma demonstração da incompetência administrativa da prefeitura de SP? Seria uma surpresa que o Kassab está preparando? Não sei.
Pelo menos na região que eu moro, Zona Oeste, eles continuam firme e fortes, se bem que alguns já tenham sido arrastados pela chuva... Alguma explicação deve haver para esse singular aparecimento. Afinal, não é todo dia que encontramos sacos amarelos pelo caminho. Quem sabe essa cor simboliza Ouro e um ano de prosperidade? E quem sabe não é justamente por isso que eles continuam não sendo retirados?
Façam suas apostas! A sorte está lançada. E um feliz 2012.

sábado, 24 de setembro de 2011

DALAI LAMA disse, eu ouvi!

Dalai Lama no Anhembi, 14/09/11
 Essa é uma ótima definição: Dalai Lama é provavelmente o líder espiritual mais importante do mundo. Sim, porque Bento XVI é visto muito mais como o chefe de uma organização, a Igreja Católica, do que como um líder espiritual. Alemão durão até alguns anos atrás na função de gerente geral do Vaticano, fica difícil para a maioria das pessoas, até católicos, imaginar que ele se revestiu de repente de uma verdadeira santidade, mesmo que sua imagem tenha sido suavizada.
O caso de Dalai Lama é diferente. Suas funções, os papéis que desempenhou na vida nunca foram antagônicos, tudo o que ele fez parece ter sido fruto de uma necessidade, tanto espiritual como existencial. A política sempre entrou nessa equação, porque ele representava o Tibete, um país oprimido e invadido pela China. Representava, assim, tanto a espiritualidade budista mais ‘pura’, como o anseio justo de liberdade. Houve uma época em que alguns filmes lançados contavam a sua história, como Kundun e Sete anos no Tibet.
Líder político do Tibete no exílio, Dalai Lama renunciou à essa função em março deste ano. Isso significa, em suas palavras, passar a responsabilidade para alguém a ser eleito. Aliás, um dos motivos para o fascínio em torno de sua figura é ter sido nomeado chefe de estado aos 15 anos, e eleito líder espiritual do Tibet – ‘dalai lama’ – aos 4!! Pessoas que o viram anos atrás e o vêem hoje acham que essa renúncia o deixou mais leve. Pode se ocupar apenas com espiritualidade, sem se preocupar com a política.
Mas se você pensa que ele esteve no Brasil na semana passada só para falar de meditação, está muito enganado. A postura e as palavras de Dalai Lama surpreendem pela simplicidade, por não tentar causar algum tipo de impacto. Suas palestras podem ser vistas em vídeo, e algo que me surpreendeu, por exemplo, foi sua afirmação de que não devemos abandonar nossa religião de origem, seja o catolicismo, ou judaísmo, ou outra qualquer, para abraçar o budismo. Talvez ele esteja propondo um sincretismo religioso, talvez seja uma precaução contra os ‘modismos’ místicos, mas o fato é que essas palavras transmitem despreendimento,  modéstia e equilíbrio.
E do que ele veio falar? Estive no Anhembi no último sábado (14) e, como mencionei, nada do que ele diz calmamente, sem muita ênfase, tem o poder de fazer caírem os queixos. Mas, ao mesmo tempo, parando para pensar, um líder espiritual nunca diria o que ele diz. Nenhum papa ou cardeal se arriscaria.
No primeiro momento, ele falou da globalização. Se você acha que ele falou mal, errou. É positivo que todos os países dependam uns dos outros, economicamente, disse ele. Assim, o senso de responsabilidade precisa ser muito maior (como estamos vendo na crise atual), em relação a qualquer medida dos governos. E talvez até a pressão de governos ‘de fora’ seja positiva para que o coletivo, ou seja, o interesse de todos ou da maioria, seja preservado. Questões ambientais também ultrapassam fronteiras de países, e no quesito ‘responsabilidade’ isso é positivo. Em outras palavras: hoje, é preciso ter uma consciência maior do que representamos para ‘o outro’; é preciso respeitar ‘o outro’, é preciso enxergar ‘o outro’. A única coisa que ele não disse foi ‘é preciso amar o próximo como a si mesmo’, mas até que essa afirmação cristã se encaixaria. O contexto sócio-político-moral, no entanto, é bem diferente.
E aí ele falou de diferenças sociais e de corrupção. As diferenças, claro, não são positivas, e a corrupção ele qualificou de ‘câncer’ que corrompe e adoece a sociedade. E então fez perguntas à grande plateia. Achávamos que no nosso país as diferenças sociais são grandes ou pequenas? Todos abriram os braços. E depois, achávamos que no nosso país e na nossa cidade havia pouca ou muita corrupção? Todos esticaram os braços até acertar a cara do vizinho. Recado dado! O mais engraçado é que Gilberto Kassab tinha aberto o evento e estava por ali. Ah, Dalaizinho, que bom é ter alguém de fora e de tão longe que entende tão bem o nosso dia-a-dia! E não tem medo de falar no assunto...
Ele aborda muitas questões. Condenou a violência e a guerra, mas explicou que a solução para esses problemas é “aprender a lidar com as emoções internas negativas”. Não aprofundou, mas é exatamente o que eu penso: longe de apenas criticar tanto países como pessoas que são ‘agressivos’, o que devemos fazer é perceber a agressividade e a violência que estão em nós. E pode ter certeza de que elas estão! A religião, disse ele, é uma forma de criar valores internos positivos, que podem combater os sentimentos negativos. (E agora digo eu: os sentimentos negativos podem ser combatidos, mas não negados; se tentamos reprimi-los, eles aparecem de forma disfarçada.)
E, embora tenha falado de religião, Dalai Lama lembrou que há muitas pessoas que não seguem nenhuma religião, mas nem por isso deixam de merecer respeito, porque os sentimentos de compaixão, e principalmente a ÉTICA e a MORAL podem (e devem) ser estimulados, mesmo em contextos não religiosos. E eu pensei, será que falar de ética no Brasil tem algum efeito prático? Estamos tão acostumados com absurdos éticos nas manchetes dos jornais que não sei não...
O que fazer com esse ‘mercado da espiritualidade’ que oferece soluções a torto e direito, com inúmeros mestres e guias fazendo suas propagandas? Ler livros, respondeu o lama, e se informar muito bem a respeito das linhas ou filosofias que nos interessam. Lembrou ainda que os inimigos que encontramos pela frente são aqueles que nos permitem aprender e exercitar os nossos valores internos, e exercitar a paciência. Na prática, significa: devemos aprender a ser tolerantes com os corruptos, por exemplo, mas isso não significa aceitar e se submeter a eles, porque alguma ação deve ser feita para combater esse mal. Ou, explicando de novo, de nada adianta odiá-los (OK, admito que os odeio, não sou tão espiritualizado assim...), porque só uma ação equilibrada e tolerante e vigilante poderá impedir que eles voltem a repetir esses atos.
Pena que não pude ver as outras palestras, mas acho que o recado foi dado. Vale ainda acrescentar que ele é muito bem humorado, faz brincadeiras com as pessoas que estão em volta no palco, situações das quais ele mesmo acha graça (em uma das palestras, ficou segurando o microfone para o tradutor falar), e no meio da palestra que eu vi deu um longo bocejo no momento em que estavam traduzindo suas palavras para o português. Ficou claro para todos que ele é um exemplo único de homem que nunca usa máscaras... 



domingo, 21 de agosto de 2011

DILMA, A Faxineira

É faxina para cá, faxina para lá. Se Dilma não fizer a sua próxima campanha com a ‘vassourinha’, a famosa vassourinha de Jânio Quadros, ninguém mais fará.

Tudo começou com as denúncias contra Palocci. Este ministro que parece ter a vocação para colocar a si mesmo de escanteio enriqueceu escandalosamente, tinha um apartamento milionário em nome de um laranja e conseguiu derrubar todos os argumentos a seu favor, “tem um papel essencial no governo”, “sem ele, não tem articulação política” etc etc. Dilma não quis saber. Foi lá e vapt-vupt, o ministro foi varrido.

Depois o Ministério dos Transportes. Que estava na mão do PR. As denúncias foram se avolumando, e de repente vieram as notícias de uma faxina completa, os números aumentando,12, 13, 17, 19, 22 – contar os corruptos é uma tarefa inglória. E como fica a infra-estrutura do Brasil para a Copa? Ninguém sabe. Mas o filho do ministro Alfredo Nascimento continuou sendo investigado pelo aumento patrimonial de 86.500% em seis anos. Investimento bom esse, hein?

Depois vem a operação Voucher no Ministério do Turismo, dezenas são presos e algemados (mais exatamente 38). Uma gravação mostra o secretário-executivo do Ministério do Turismo, Frederico Silva Costa, orientando um empresário a montar uma ONG de fachada para fechar convênios com o governo, ou seja, uma lição de ‘como roubar o povo brasileiro’. O curioso é que Brasília se alvoroçou, não por causa das denúncias e dos altos nomes envolvidos, mas pelo uso de algemas. “Isso sim é inaceitável”. Mais surpreendente ainda, todos são soltos em seguida, como se a polícia não tivesse prova nenhuma para prendê-los. Notícia de hoje no UOL diz que o Ministério do Turismo gastou 352 milhões em cidades que não tem vocação turística. Prestou atenção no número?

Ah, tem também o Ministério da Agricultura. O ministro, por sinal, já caiu. Mas, se a gente vai ler a respeito, as informações são sempre as mesmas. Será que vale a pena?

Você provavelmente está apoiando tudo isso, afinal são ministros e políticos corruptos afastados, o mínimo que se poderia fazer com eles, não é? Vai lá com a vassoura, Dilma!

A questão é saber o que isso significa. O que significa em Brasília e no cenário político brasileiro. O primeiro político do PT a ser afastado do ministério dos transportes declarou que a faxina estava indo longe demais. A seguir, outros políticos deram o tom: Jacques Wagner, governador da Bahia, numa entrevista informal, disse que Lula era flexível, e Dilma era ‘dura’. Políticos do PT também reagiram contra as algemas no Turismo, e começaram a avaliar que se o governo Dilma ficasse carimbado como o ‘governo da faxina’, o governo de Lula seria, por contraposição, o ‘governo da corrupção’. O PR declarou que sairia da base de apoio ao governo.

Tudo isso é claro: os políticos não querem uma mudança profunda e verdadeira na política, e jamais aceitarão perder a chance de enriquecer. Não se espante se Dilma começar a ser rotulada como ‘não política’, ‘inflexível’, ‘intolerante’. O que quer dizer: deixem-nos roubar, por favor.

O mais grave é que, no mundo real, Dilma não poderia de fato tirar todos os corruptos do poder: as costuras de apoio político se romperiam, projetos não seriam aprovados – haveria de fato uma paralisia política. E somente ela seria responsabilizada. Não é à toa que Dilma, que pode ser dura mas não é boba, também protestou contra os abusos da polícia federal. Entre o fogo e a frigideira.

Só pelas notícias publicadas nos últimos meses, podemos calcular que mais de 1 bilhão de reais vazou no ralo da corrupção. Mas, por mais que seja arriscado, estamos vivendo uma oportunidade única: os casos estão aparecendo, e os políticos estão realmente caindo. Se não soubermos aproveitar essa chance, dando apoio a essa belíssima faxina, nunca mais conseguiremos fazer nada. E é fundamental lembrar que as leis do país não são suficientes para resolver isso.

Pois é. Ou nos conscientizamos agora, ou nunca. Participando de alguma forma, nos informando, mas sobretudo lembrando que sem uma mudança nas leis, ninguém pagará pelo crime de corrupção e muito menos devolverá o dinheiro. A eleição da primeira mulher presidente, afinal, não significou uma mudança no básico: na mentalidade dos políticos, e nas regras e leis existentes já algum tempo. Afinal, lembra-se... quem foi que aprovou essas leis?

terça-feira, 12 de julho de 2011

A Educação, de novo


O assunto não é novo. Eu já postei 2 vezes aqui, mostrando a minha indignação com a educação do Estado de São Paulo. Quer dizer, falei da minha experiência mesmo (veja aqui), de como a escola simplesmente não 'fechou turma', nada disse até o primeiro dia de aula, e depois tranferiram o pequeno para outra escola, sem me avisar nada.

Mas isso acontece por acaso? Assista ao vídeo e conclua por você mesmo. O fator determinante em tudo isso é o contexto social e político que envolve a educação, é claro. Não é novidade que os professores não têm estímulo nenhum. Atendendo o pedido da minha amiga Tatiana, divulgo esse vídeo aqui.

Proponho apenas que cada um de nós reaja de alguma forma, proteste,exija, enfim... faça alguma coisa. Já!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O Saldão da FLIP






  Terminada a FLIP, qual é o saldo para a literatura, os autores e, principalmente,  os leitores? O saldo é positivo, embora não exista a possibilidade de uma súmula do que o encontro significou, pois os organizadores não apostam (nunca apostaram) na ideia de fazer com que o evento gire em torno de um único assunto. A FLIP não é um Fórum Social Mundial em que é preciso chegar a conclusão, posições e talvez um documento assinado por todos.
A FLIP nos oferece 3 tipos de pacotes com embalagens e conteúdos diversos. O primeiro é o ‘Pacote Pensamento’, que uma vez aberto pode trazer a ventania da polêmica, ou ao menos uma racionalização teórica, ensaística, sobre aspectos intelectualizáveis da literatura. Portanto, o pacote mais próximo do que seria um ‘debate’, como ideal a ser atingido. Neste caso estão Antonio Candido, Jose Miguel Wisnik, João Cezar de Castro Rocha, e outros, que falaram sobre Oswald de Andrade, ou Miguel Nicolelis e Luiz Felipe Pondé, que nos brindaram com a polêmica mais vibrante e provocativa da FLIP, sobre tecnologia e filosofia e religião. Neste último caso, não por acaso, muitos se retiraram antes do fim, protestando talvez contra o ateísmo declarado dos dois.
O segundo é o ‘Pacote Lançamento’. Obras recém-lançadas têm seus autores convidados para falar sobre elas. Nesse caso, o pensamento não é primordial, troca-se o vento da polêmica pela brisa dos procedimentos literários, das escolhas estéticas que quase nunca são justificadas, antes se diz que a obra é que impõe certas escolhas, ou que aqueles personagens tomaram rumo próprio, deixando o impotente autor à sua mercê.  Neste caso estão o húngaro Péter Esterházy e o francês Emmanuel Carrère, que explicaram como suas obras foram permeadas por fatos reais, até mesmo à sua revelia. Explico: depois de ter publicado uma obra fortemente autobiográfica, Esterházy descobriu que seu pai tinha sido um agente da polícia secreta comunista, e isso o levou a escrever rapidamente um segundo livro. Carrère tornou pública parte de sua vida pessoal e familiar, desagradando à sua mãe e sua namorada. Outros lançamentos, como o livro sobre Elizabeth Bishop, de Michael Sledge, e de brasileiros como Edney Silvestre, Marcelo Ferroni e Teixeira Coelho, foram apenas protocolares, pois os autores não conseguiram mostrar porque suas obras merecem ser lidas.
O terceiro é o ‘Pacote-Autor’, que traz, é claro, o autor como foco maior de interesse. O mais óbvio exemplo é João Ubaldo Ribeiro, que aproveitou para fazer revelações (por exemplo, Viva o Povo Brasileiro foi escrito principalmente para ser um livro grosso, e ele não gosta de Guimarães Rosa), e deixar que o público cultuasse (tietasse?) sua personna artística.
Outro autor que foi cultuado - até ser execrado - foi Claude Lanzmann , que veio falar de suas memórias, falou também do seu documentário sobre o Holocausto, mas ficou insistentemente brigando com o apresentador, e fez grande parte do público deixar o local.

O melhor então seria escolher um pacote que viesse com mais de um recheio. A abertura com Antonio Candido serviu para alimentar o debate, mas a própria figura do crítico foi muito cultuada, embora ele não seja escritor. Esse caso, em que o carisma do estudioso é grande o suficiente para levar o público a lotar a tenda dos autores, é uma exceção, sublinhe-se. É possível que a mesa com David Byrne talvez tenha sido bastante recheada, com um lançamento, um debate em torno do urbanismo sustentável, e também a sua presença, ele que já foi líder de uma banda de sucesso. Mas como eu não vi, nada digo.
Lamento apenas ter perdido o português valter hugo mãe (é com minúscula mesmo), pois ele emocionou a platéia, se tornou um dos mais comentados pelo público, e ofuscou completamente a argentina Pola Oloixarac (eta nominho!). Mas não dá tempo para tudo, juro.

Fica então um desafio para as próximas edições da FLIP: que a organização consiga achar um Autor (ou Autora) conhecido, que este possa falar de um Lançamento, e que provoque a plateia com seu Pensamento. Seria um incomparável Pacote Triplo, que não poderia deixar de satisfazer todos os gostos e atender a todas as expectativas. A relação custo/benefício seria irresistível. O desafio está lançado.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

RELIGARE



Se você tem alguma religião, deve saber que o sentido da palavra está originalmente no verbo latino Re-Ligare, ou seja ligar de novo. Mas ligar o quê? Ligar-se a Deus, à espiritualidade, à fonte primeira, de onde viemos e onde estávamos ligados.

Quer dizer, estávamos sim ligados a Deus no princípio de tudo, depois é que veio algum problema que gerou a desagradável separação. Por isso religião é re-ligar, re-compor, re-fazer esse vínculo que foi quebrado – infelizmente, é claro, por isso mesmo buscamos ansiosamente um contato com o divino, com uma força maior.

Eu acredito piamente nisso. Quero dizer, acredito que essa ligação possa ser refeita, sim, apesar de não saber em que momento exato ela foi quebrada. Aí você, uma pessoa cética, pode perguntar: mas Deus existe? Se juntarmos todas as pessoas que acreditam em uma religião, temos pelo menos 5 bilhões de crentes, ou de pessoas desejosas dessa ligação com o divino. E isso quer dizer: independentemente da religião, o ser humano procura essa conexão, e se não podemos comprovar a existência de Deus cientificamente, essa é, no mínimo, uma verdade humana, uma verdade para a maior parte das pessoas.

Eu vou além. Acredito que todo ser humano procura essa conexão, mesmo os não religiosos. Como assim? É que mesmo quem não segue uma religião procura formas alternativas de transcendência. Transcender = atravessar o limite da própria existência e existir em outro tempo, em outro lugar. Alguns querem a fama, outros querem deixar bens para a família, outros se preocupam simplesmente com a sua reputação. Mas não é contraditório? Por que deveríamos nos preocupar com o amanhã, ou com a opinião alheia, que não controlamos? Na minha opinião, essa é uma maneira de atravessar os limites do nosso corpo, e vamos admitir que nunca aceitamos muito bem esses limites! Imaginamos nós mesmos em um tempo futuro em que seremos muito importantes, seremos reconhecidos... você não imagina, nunca imaginou? Pois isso é desejo de transcendência, isso é, estar além do momento presente, e esse é apenas mais uma característica do ser humano, a de se projetar no tempo e no espaço, ou seja, a de ampliar sua existência para além do aqui-agora.

Imaginação. Sim, você pode reduzir tudo ao verbo Imaginar, e dizer que é natural que o homem imagine, o futuro, o passado, enfim, imaginar o que não pode existir agora. OK. A questão é a intensidade com que ele imagina e joga suas emoções para esse passado, ou muito mais para o futuro... Como se nós vivêssemos uma vida imaginária na maior parte do tempo, com uma dificuldade natural de viver o presente. Temos alegrias imaginárias e tristezas imaginárias. Mas conseguiríamos viver sem esses pensamentos? Tente e depois me diga.

E se o ser humano é de fato assim, posso apenas entender que essa é apenas uma das maneiras de buscar transcendência, de estar em muitos lugares ao mesmo tempo, de querer essa re-ligação com o divino, de sentir que temos um valor maior do que da simples existência física... sim, esse é o grande estopim de todas as religiões, a total incapacidade do homem de aceitar que seja SÓ FÍSICO e que tudo acaba no instante definitivo da morte. Custo a acreditar que mesmo a mais materialista das pessoas não pense na morte com alguma apreensão, não por causa da dor, mas por causa do VAZIO que pode se seguir depois...

Enfim, a religião é uma das bases do homem, e talvez eu tenha conseguido provar que ela é a base para TODOS os homens. Mas por que estou falando disso? Não sei, estou aqui na FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, e pensamentos ligados à espiritualidade me assaltaram. Talvez porque esse ambiente, esse lugar sejam muito propícios para a tão desejada Re-Ligação Transcendental que pode acontecer de várias formas, sendo que uma das melhores (e tão antiga quanto qualquer religião) é a própria Arte.

Escreverei num próximo post sobre a FLIP em si mesma. Está deliciosa. Mesmo com o frio.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Absurdo das Leis



Você deve ser um respeitador (ou respeitadora) das leis, como eu. Todos, afinal, concordamos que sem leis viveríamos no CAOS, sem a menor segurança na vida em sociedade. Só as leis podem nos proteger.

Um segundo pensamento, porém, nos mostra que as leis nem sempre são tão boas assim, e por isso mesmo há leis que ‘não pegam’. Foram aprovadas, mas ninguém respeita. A questão então passa a ser: por que foram aprovadas? Por que simplesmente existem? Há duas possibilidades. A primeira nos diz que os deputados legisladores foram simplesmente ineptos, escreveram algo fora da realidade, não houve a conscientização das pessoas, a lei não pegou. Outra é pensar que a lei só foi aprovada para dificultar as coisas – o que significa favorecer a burocracia e a corrupção que vem junto com ela. “Criam-se dificuldades para se vender facilidades”, diz a já famosa frase.

Como se vê, nenhuma das possibilidades é muito inspiradora. Uma manchete de hoje reforça essa impressão: “270 aves apreendidas pela PF podem ser sacrificadas em Manaus”. O comércio de animais silvestres é proibido, como sabemos. E por quê? Porque esses animais não deveriam viver em cativeiro, e as espécies devem ser preservadas em seu habitat natural. OK. Mas a mesma lei que faz apreender as aves determina que devem ser sacrificadas? Em outras palavras, ninguém pode fazer mal às aves, mas a polícia pode matá-las?

Essa é a lógica perversa que ronda o Estado e sua arbitrariedade. Leis são aparentemente defensáveis e bem intencionadas, mas os buracos aqui e ali tornam a sua aplicação uma piada de mau-gosto. Não é à toa que muitas pessoas conseguem ‘assaltar’ o Estado, ou seja, valem-se de buracos nas leis para conseguir vantagens absurdas. Empresas que não pagam o INSS dos empregados, por exemplo, já conseguiram vitórias contra o governo, ou seja, contra nós, e às vezes ainda conseguem empréstimos do BNDS. Em outras palavras, literalmente pagamos para ser explorados, e pagamos duas vezes.

E por que não soltar as aves? Porque não são nativas do Brasil, e não sobreviveriam, explica o delegado de Repressão a Crimes Contra o Meio-ambiente. Ou seja, as aves não poderiam morrer naturalmente, seria uma maldade sem par, então é melhor matá-las de uma vez. Mas não adianta, o círculo não fecha.

Esse episódio, para mim, apenas mostra o abismo que há entre as leis e a compreensão das leis pelo cidadão comum. E, por isso, não há a possibilidade de obedecê-las. E, por isso, o não-respeito às leis continua a ser uma regra no Brasil. Assim se vai perpetuando uma mentalidade em que a corrupção é corriqueira, quase natural, e o não cumprimento de prazos, contratos, acordos é apenas uma faceta da ‘nossa cultura’. O Estado está tão distante da esfera dos cidadãos comuns que eles julgam que podem até fazer aquilo mesmo que a lei proíbe. A Copa que vem chegando também parece um prato cheio para o desrespeito, os orçamentos estourados e, como vem mostrando a imprensa, nenhuma transparência. É esse o país que quer ser uma das cinco maiores economias mundiais?

Detalhe: o homem que trouxe as aves responderá “pelo crime de introdução no país de animais sem licença do Ibama, além de maus tratos contra animais”.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Brasil no Topo?















Pode ser coincidência, claro. Mas como no último post falei justamente sobre o Brasil e seu recente sucesso, ficou irresistível não comentar (ou melhor, replicar) a melhor notícia de hoje: O Risco dos EUA é maior do que o risco Brasil pela primeira vez na História.
Se você é jovem, talvez isso não seja muito claro, mas o risco Brasil (de aplicar o dinheiro aqui e não recebê-lo nunca mais) sempre foi 20 ou 40 vezes maior do que o americano. E de repente o americano ultrapassa o nosso. Alguém pode me beliscar, por favor?
Será que a maré virou mesmo? Será um prenúncio dos próximos anos? Bom, o principal agora é comemorar. Leia a notícia abaixo e vá festejar com os amigos. Um empurrão na auto-estima não faz mal a ninguém:
"Pela primeira vez na história, os investidores enxergam mais risco de calote dos Estados Unidos que do Brasil."
O Credit Default Swap (CDS) de um ano – instrumento de proteção contra o risco de um devedor não cumprir suas obrigações – do Brasil tem sido negociado abaixo do norte-americano.
“Ainda que circunstancial, trata-se de algo inédito na história ou mesmo um fato impensável que pudesse ocorrer em algum momento”, diz o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros.
No dia de ontem, o CDS do Brasil estava em 41,2 pontos-base, enquanto o norte-americano estava em 49,7 pontos.
“As dificuldades enfrentadas pela economia americana e as tensões no Congresso americano em relação ao teto para o endividamento que será atingido em julho geram incertezas nos mercados”, completou Octavio de Barros
(Guilherme Barros, portal IG)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

EIKE, "O Cara"

 Você já ouviu falar de Eike Batista? (pronuncia-se AIKE) Se não, deveria. Ele é provavelmente o melhor símbolo do Brasil de 2011.
Eike foi listado pela revista americana Forbes como o brasileiro mais rico e o 8º homem mais rico do mundo (todos os primeiros são homens).
Filho do antigo presidente da Vale do Rio Doce e ministro de Estado Eliezer Batista, ex-marido de Luma de Oliveira, só agora esse personagem parece ter encontrado luz própria. E que luz. Ele anuncia provocativamente que se tornará o homem mais rico do mundo, e por isso Carlos Slim e Warren Buffett, os primeiros, que se cuidem! E diz isso em entrevistas nas televisões abertas americanas, portanto para o mundo inteiro. Conseguirá?
Se você acha que sim, seria o caso de investir nas ações das empresas dele, pois quando ele se tornar o primeiro elas aumentarão muito de valor. Por isso mesmo se torna símbolo: será que ele, assim como o próprio Brasil, continuarão despontando no cenário econômico mundial como grandes sucessos? Nós, simples mortais, podemos não ter ideia, mas a resposta para a pergunta certamente afetará as nossas vidas.
O país que hoje parece atrasado e mal preparado para sediar a Copa de 14 e as Olimpíadas de 16 está no olho do furação, quer dizer, sob os olhos do mundo. Costumo dizer que nenhum país do mundo teve essa colher de chá, a de fazer esses dois eventos de importância planetária ‘em seguida’. Por isso mesmo a responsabilidade é maior. E o sucesso, ou fracasso, desses eventos também serão cruciais para a nossa História.

Uma nação moderna, competitiva, invejada pelas outras, tudo isso para quem passou muito dos vinte anos, como eu, parece conto da carochinha. O Brasil sempre foi o oposto. Contribuiu para a mudança, sem dúvida, o amado/odiado presidente Lula, chamado muitas vezes de ‘o político mais popular da face da Terra’. Isso lá fora. E também se  repetiu muito que "Brasil foi o último país a entrar na crise, e o primeiro a sair dela", em referência à crise de 2008. Quando vejo a nossa Educação Pública, duvido bastante do sucesso do Brasil, mas quando vejo os números de crescimento, investimento, e até de valorização do real, penso que o sucesso está na nossa porta.
E aí desponta EIKE. No ano 2000 ele se desfaz de suas minas de ouro no mundo afora e investe todo o seu dinheiro no Brasil. Seu 1 bilhão de dólares se transforma em 30 bilhões. Para quem pensa que isso é maracutaia com o governo ele explica que não tem nenhum contrato público. O que ele tem é a concessão de exploração de petróleo em certas áreas do Brasil (o que foi uma concorrência pública), poços que neste ano de 2011 começam a jorrar. Isso além de outras empresas. E como se explica a multiplicação do dinheiro? Simples. Ele abre o capital das empresas na Bolsa de Valores. Muita gente se interessa, as empresas recebem altos investimentos e multiplicam de valor. Por isso anuncia que pretende ‘listar’ as empresas nas bolsas de outros países, como Inglaterra, assim receberão ainda mais dinheiro.

Mas um cara tão falastrão não gera desconfiança? Sim. Mas esse jeito que ele tem, meio ingênuo, cheio de si, provocativo, é tipicamente brasileiro. Comparado com outras nacionalidades, o brasileiro fala mais do que deveria, e não se importa de fazer papel de bobo em certas rodas. Talvez por isso ele consiga a adesão de tanta gente. Fala muito do Brasil, diz que escolheu investir e viver aqui, faz investimentos sociais no Rio de Janeiro (nas UPPs), promove a limpeza da lagoa Rodrigo de Freitas, aparece em programas de TV (veja-os no Youtube, como eu), doa U$ 7 milhões para a Ong de Madonna, diz que não vale a pena ser rico se o entorno for pobre, e por aí afora. Expõe sua fragilidade humana, a começar por admitir a vaidade, seus arroubos juvenis, e por aparecer em uma entrevista por exemplo, com uma gravata que mais parece a gravata de um palhaço, de tão longa. Muito diferente de outros empresários que têm medo de seqüestro e ninguém conhece, vamos admitir. Com tanta exposição, fica mais fácil confiar – ou definitivamente não confiar – nele.
Ele está construindo um dos maiores portos do mundo no Rio de Janeiro, em São João da Barra, e já tem muitos contratos engatilhados com a China, inclusive para receber os super-navios Chinamax. São tantas empresas reunidas naquele local, todas interligadas, que a cidade passou a se chamar Eikelândia. Convenhamos, não é pouco. Como se falou muito nos últimos anos da precariedade e alto custo dos portos brasileiros, espero que esse empreendimento realmente dê certo. E talvez os outros portos possam seguir o exemplo. Se você acha que não tem nada a ver com isso, explico: os portos são parte dos altos custos dos produtos que nós consumimos. Eike é um empresário que aposta na eficiência e na competitividade.
Luma de Oliveira, a ex-mulher, até hoje o defende, com lágrimas. Será esse mais um motivo para confiar nele? Eu confio, e torço, mas não posso e nem quero convencer ninguém. Só digo que vale a pena acompanhar a trajetória desse singular personagem com atenção. Na minha opinião, seu futuro – sucesso ou fracasso – se confunde com o futuro do Brasil.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Defesa do Atirador

Agora eu vou ser linchado. Moralmente ou talvez até fisicamente. Mas como é um assunto que já esfriou, resta a esperança de que as pessoas consigam ver o caso à distância que o tempo permite. Estou falando do Atirador do Realengo.

Ao cometer seu ato insano, o Atirador se uniu a uma galeria de assassinos célebres: Suzane Richthofen, o casal Nardoni, o atirador do shopping em São Paulo (alguém se lembra?), e o agora ressuscitado Abominável Pimenta das Neves. As perguntas que tenho me feito, desde então, com certo incômodo, são as seguintes:

1. Deve ele ser colocado na mesma categoria dos outros assassinos?

2. E, já que foi enterrado como indigente, pois o corpo não foi reclamado por ninguém, merecia um enterro ‘normal’? Você pode responder?

 Sei que as pessoas, todas, devotam a esse estranho personagem desprezo e rejeição. Eu, no entanto, não consigo desprezá-lo como desprezo os outros assassinos citados. Um pouco de pena, um pouco de perplexidade, não sei, acho que dentro de sua loucura ele teve, ainda, lampejos de consciência e de dignidade. A covardia, sim, estava lá, como no caso dos outros assassinos, e a crueldade, mas ele não estava imbuído de um egoísmo atroz. Os outros queriam ter um ganho imediato, mesmo que esse ganho fosse apenas emocional, e não pareceram arrependidos. Para se ter uma ideia, o Abominável Pimenta das Neves, dias depois de assassinar a namorada e confessar o crime, ainda a acusava de ser aproveitadora, entre outras coisas. Estava movido por uma paixão. Isso é compreensível. Mas não compreendo como, depois de tanto tempo, ele ainda não consiga se distanciar do ato que cometeu, perceber o prejuízo causado a todos os envolvidos, e se arrepender. Não. A prova é o número de recursos apresentados, a recusa em pagar pelo crime. Mas finalmente ele foi para a cadeia. Espero que lá apodreça.

O caso de Suzanne Richthofen é pior, pois a mocinha, mesmo sendo obrigada a confessar o crime, continuou movendo céus e montanhas para ter direito à herança dos pais assassinados, esse o seu maior objetivo. Arrependimento? Nenhum. Os Nardoni são um caso à parte. Não se sabe se eles se defenderam com convicção por pensar nos filhos, mas durante todo o tempo foram capazes de dissimular muito bem, mostrando essa faceta tão desprezível do ser humano que é a falsidade.

Para quem tem raiva do atirador do Realengo eu poderia dizer o seguinte: a pior pena que existe no mundo é a execução – morte – do condenado. E seu ato já previa isso, tanto que ele deixou instruções para as cerimônias religiosas e o enterro. Ou seja, nesse caso, o castigo já estava previsto na ação assassina. Tudo foi planejado, divulgado na Internet, mostrando que seu objetivo maior era SER OUVIDO. Esse é o lado mais trágico e que me toca: o ato mostra que muitas vezes é difícil ser ouvido, ter nossa dor reconhecida pelos outros. Ele declarou que tudo foi por causa do bullying que sofreu. Será verdade, ou delírio de um desequilibrado?

Depois de uma tragédia, todos procuram o ‘culpado’. Volta-se a falar de um referendo para proibir o porte de armas, mas poucos parecem dispostos a se lembrar daquela época em que defenderam esse direito, e que o preço a pagar pelas armas é ter algum maluco que às vezes sai atirando. A culpa, enfim, é algo mais amplo, inerente à sociedade. E justamente pela falta de culpados, começaram a levar mais a sério o que o Atirador disse a respeito do bullying, tanto que muitas matérias sobre o tema foram publicadas desde então. Afinal, talvez ele tivesse alguma razão. Mas isso também é trágico. Ele alcançou seu objetivo (e talvez tenha sido o único assassino a ter alcançado), mostrando que para a sociedade pensar com seriedade em um problema é preciso um ato trágico de grandes proporções.

Entre tantas perplexidades, o cadáver ficou lá, esquecido. E se você desejou que ele fosse jogado num esgoto e devorado pelos urubus, devo dizer que o mesmo ódio estava presente naquele ato assassino, e que o ódio não seria capaz de curar o ódio. Não se trata de justificar, e nem mesmo de explicar. Trata-se de reconhecer um direito. E reconhecer que este caso envolve toda a sociedade em uma dimensão maior do que os outros. Jogar a culpa apenas no Atirador é cegueira. Isso me lembra a antiga peça grega Antígona. Como se sabe, ela foi condenada à morte por ter enterrado o irmão, considerado um ‘traidor’ e não merecedor dos rituais religiosos. 2.500 anos depois a mesma situação acontece. O traidor não merece enterro. Me chamou a atenção o fato de que ele tinha uma família adotiva, que nada fez. Ora, eles podiam estar com medo, mas quem acusaria alguém de tomar as providências legais para um enterro ‘normal’? Esse fato me chamou a atenção, porque nem mesmo a família estava disposta a cuidar do morto . Ou seja, a solidão – dor – do atirador, que não era ouvido, parece ter sido bem real...

O espectador que vê Antígona concorda, é claro, com sua atitude, e minha posição é a mesma. Não se pode negar o direito de ser enterrado a ninguém. Só para efeito de comparação, os outros assassinos tiveram o direito à plena defesa, e ainda terão o direito à sua vida, depois de algum tempo. Comparativamente, isso sim é muito mais injusto e revoltante. Guilherme de Pádua, por exemplo, deve estar por aí, levando uma vida relativamente normal. Se alguns monstros podem circular livremente, e até contar com a simpatia de outros, por que deveríamos negar sepultura aos mortos? Pois eu o enterro na minha consciência. Que descanse em paz.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Noite Que Transbordou




















Imagine ir a um espetáculo em que, na mesma noite, se apresentassem Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Elis Regina, Nara Leão, Rita Lee, Nana Caymmi, Edu Lobo, Jair Rodrigues, MPB4 e outros. Sonho, delírio? Não, foi a final do 3º Festival de Música Brasileira da TV Record, em 1967.

É impressionante. É tanto, mas tanto talento reunido, que a maior parte dos nomes citados não cabe no filme, e só pode ser vista nos extras do DVD (Uma Noite em 67) recém-lançado e que corri para ver, porque já o tinha visto no cinema e achado curto demais. Quem pode ver um filme em que Elis Regina fica de fora? Os diretores, porém, se basearam num critério justo: mostram os 5 nomes que se classificaram nos primeiros lugares.

Essa reunião de talentos, que indicava muito bem tudo o que aconteceria de mais significativo a partir de então na MPB, seria impossível hoje, em que a cultura é pulverizada. O filme impressiona por isso e outras coisas: nenhum deles tinha medo de perder, e ser comparado com os ‘rivais’. Também porque, ao contrário do que muitos podem imaginar, Caetano Veloso e Roberto Carlos, por exemplo, entraram no palco sob vaias.

A vaia era uma instituição da época. Cada um defendia o seu artista preferido com desespero e paixão. Tanto que o cantor Sérgio Ricardo não conseguiu cantar a sua música, espatifou seu violão contra uma banqueta e o atirou na plateia. Agora, o que Caetano Veloso e Roberto Carlos fizeram com a vaia recebida? Bem, isso só pode ser visto no DVD mesmo.

As divergências político-culturais da época se manifestavam no palco. Imagine que, em pleno início da ditadura militar, as pessoas saíram às ruas (Elis Regina e Gilberto Gil, por exemplo) para protestar contra a guitarra elétrica. Isso porque a guitarra simbolizava a cultura americana, que podia a qualquer momento invadir a brasileira e a ‘destruir’. E no palco, logo depois, aparecem justamente as guitarras elétricas. Quem teve a coragem de fazer isso? Mistério...

Que tempos! Existe um livro chamado 67, o Ano que não Terminou, que vai nessa linha, dando a impressão de que 67 foi ‘o ano’ de toda uma geração, o auge de uma efervescência que nunca mais se repetiria. Nada mais cultural, portanto, do que assistir a esse DVD e ver a cultura brasileira musical em seu auge. Além disso, ouso afirmar que, no Brasil, nenhuma expressão artística foi mais importante nos anos 60 e 70 do que a música.

Mas se você imagina que eu recomendo assistir a esse DVD, engana-se: você deveria comprá-lo. E de preferência não no camelô. Desconheço outro documentário no Brasil que seja tão importante, tão envolvente. Para minha surpresa, que imaginava ser a ‘maturação’ de um artista um processo longo, no DVD se podem ver artistas plenamente maduros, capazes, com personalidades artísticas bem definidas, mesmo que só tivessem 22, 23 ou 24 anos. O smoking de Chico Buarque é apenas um sinal do que ele era e continuaria a ser para o público – até hoje.

Que tempos! E enquanto não inventam a tão sonhada ‘máquina do tempo’, o jeito é comprar esse DVD.

domingo, 17 de abril de 2011

O SEGREDO DE UM CARRO














Será que num mundo como o nosso, em que toda a tecnologia é alardeada aos quatro ventos, e as inovações são o principal motivo para comprar um produto, o que é bastante enfatizado pela propaganda, faz sentido falar em segredo?

Acho que sim e explico por quê. O Novo Uno é um bom exemplo. Lançado em maio do ano passado (2010), ultrapassou expectativas e se tornou o carro mais vendido no Brasil nos dois últimos meses (fevereiro e março), ultrapassando o Gol. Ou seja, sucesso inquestionável, tendo ganhado prêmios como Carro do Ano, da revista Auto-Esporte. Para completar, foi um projeto desenvolvido no Brasil, que consumiu 600 milhões de dólares e durou 3 anos. A Fiat explica que o carro traz um novo conceito, o Round Square, o Quadrado Redondo. Quer dizer, o velho Uno quadradinho ficou arredondado nas bordas. Traz também um novo motor batizado de Evo, abreviatura de ‘Evolução’. Mas isso explica o sucesso?
Novo Uno: Quadrado Redondo


Não! O que realmente leva as pessoas a se encantar e desejar um produto é algo jamais explicado pela própria empresa, pois isso tiraria o mistério, o fator subjetivo, inconsciente, e por isso não admitido pelo lado racional de cada um. Em outras palavras, o que garante o sucesso é o vínculo emocional que se estabelece, e não a tecnologia inovadora. Isso para muitos não é novidade, então a pergunta que se faz é: que tipo de vínculo emocional é esse que foi criado aqui?

O verdadeiro conceito inovador desse carro é ser um brinquedo. O carro-brinquedo tem várias versões e pode vir acoplado de para-choques e para-lamas gigantes, como se fossem de borracha e pudessem ser destacados, e cores berrantes jamais vistas em outros carros. Traz também barras e frisos imensos, puramente estéticos. Tudo salta aos olhos, como se tivesse sido desenhado para crianças bem pequenas. Reforçando a ideia de monta-desmonta, você pode no site da Fiat (também muito colorido) construir o modelo do seu jeito, e a primeira informação é de que já foram montados 1.842.822 carros. Ou seja, as possibilidades de combinações são infinitas. E como o número é muito superior ao efetivamente vendido, podemos concluir que as pessoas entraram lá para montar seu modelo por pura diversão. É uma brincadeira, e de graça. A propaganda, também premiada, dizia: ‘Uno Duni Tê, Salamê Minguê, Sorvete Colorê, o Escolhido foi Você.’ É um carro personalizado, inclusive com os adesivos que se tornaram uma febre, mas ninguém me tira da cabeça que o principal não é ter o ‘seu’ carro, mas o aspecto lúdico (prazeroso) da montagem.
Porta-objetos no teto


Sabe aquela ideia de que o nosso lado criança nunca morre? Esse carro prova isso. Nesse sentido, ter filhos é apenas uma nova oportunidade para viver (ou re-viver) as alegrias da infância. E há outros detalhes: o Novo Uno tem um porta-óculos e um porta-objetos no teto. Como se os engenheiros também tivessem se divertido em colocar acessórios em locais impensáveis e malucos. Tudo isso me faz pensar em homens adultos e muito ricos. Você sabe o que eles fazem quando juntam dinheiro suficiente? Primeiro compram um carrinho, depois um barquinho e depois um aviãozinho. E é claro que vão mostrar o carro, o barco e o avião aos amigos, realizando seus sonhos de infância de ter esses brinquedos de verdade.
Mitsubishi Pajero

Mas o segredo não se esgota aí. Afinal, o ser-humano é complexo, tem muitas facetas a ser exploradas. Um outro aspecto que explica o sucesso é que o Novo Uno parece um ‘jipinho’, ou um SUV, um veículo utilitário, como o Ford EcoSport e o Mitsubishi Pajero. A diferença é que esses carros, maiores, mais altos, mais robustos e com a ideia de combinação de vida urbana e vida esportiva, são muito mais caros. Ou seja, a pessoa compra um carro barato, mas tem a ‘sensação’ de que comprou um carro de outra categoria, portanto com mais status. Mas essa não é a primeira vez que isso acontece. O Corsa, que na sua primeira versão tinha uma cara de peixe morto, teve suas linhas aperfeiçoadas e foi se aproximando do Vectra, carro muito maior, mais possante, mais tudo. A cada nova versão o comprador tinha a sensação de estar mais perto do seu sonho de consumo. Acho até que essa aproximação é feita aos poucos para seduzir o consumidor devagar, como um desnudamento que precisa ser lento, pois se fosse rápido não seduziria. Mas se isso for verdade, nunca será admitido, como eu disse antes.
Antigo Corsa

Corsa Reestilizado


   Como se vê, a tecnologia é importante, mas é superada pelo ‘conceito’ que está por trás, ou na base do produto. E o conceito é extremamente simples. Qualquer pessoa poderia ter imaginado: eu, você, qualquer um. Por isso acho que as ideias, as boas sacadas serão o verdadeiro diferencial em qualquer campo de trabalho. A tecnologia, afinal, é sempre copiada e se espalha muito rapidamente no nosso mundo globalizado.
E se você pensa que eu comprei um Novo Uno, não, não comprei. Na hora da troca deixei aflorar apenas o lado racional. Pelo menos dessa vez.


sábado, 9 de abril de 2011

Malditos Chineses




Não há dúvida de que o maior acontecimento histórico do século XXI é a subida meteórica da China. Ele era previsto, mas o ritmo da expansão do país asiático tem sido maior que o esperado. Isso porque a China cresce em média 10% ao ano. Já é a segunda maior potência econômica do planeta, e ultrapassar os Estados Unidos é só questão de tempo. 15, 20 anos? Não importa. É certo que acontecerá.

Se você imagina que alguns países estão enciumados com isso, engana-se. O ritmo de crescimento da China ajuda todos os outros países a crescer, porque, além de exportar, a China também importa muita coisa – assim como os outros BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) também contribuem para o aumento do comércio mundial. Mas o destaque da China é tão grande que suscita muitas outras dúvidas. Como será este que já pode ser chamado de século da China? Comeremos espaguete todo dia? Iremos correndo aos cinemas para ver os últimos sucessos de Hongwood, ou melhor, Hong-Kong-wood? Devo me matricular já num curso de Mandarim?

É claro que as mudanças históricas não são tão rápidas, mas mesmo assim sobram dúvidas quanto ao futuro:

- Como será a liderança política da China? Interferirá em outros países, como fazem os Estados Unidos? Ou limitará sua influência política aos países da Ásia?

- De que forma uma crise na China seria sentida no mundo? Basta dizer que a maior parte da dívida americana está na mão dos chineses. Teríamos assim as duas maiores potências mundiais afundando juntas. Ah, não quero nem ver.

- O Partido Comunista Chinês sairá do poder? Duvido. Afinal, foram eles que conseguiram essa prosperidade bem capitalista.

Uma coisa é certa: os produtos chineses continuarão invadindo o mundo, o que inclui a minha e a sua casa. Porque são baratos. E isso acontece porque a mão-de-obra chinesa é baratíssima, mesmo se comparada à do Brasil. Muita gente reclama disso, dizendo que as fábricas vão fechar em toda parte. Aí o fabricante resolve abrir uma importadora. E nós vamos continuar comprando produtos de 1,99.

Tudo bem. Só que nos últimos meses eu comprei um despertador e um relógio de parede. O despertador não durou nem uma semana. O relógio de parede durou 6 meses. Adivinhe de onde eram? Se você disse Brasil, errou. E em seguida um mouse que eu havia comprado recentemente também parou de funcionar. E de onde era? Fui ver, pimba! Adivinhe. Tente adivinhar.

Isso me faz pensar em um rádio-relógio da Sony que eu tenho há 13 anos, perfeito. Não que os produtos japoneses sejam todos bons. Mas sem dúvida eu preferiria, ao invés de ter gastado pouco em 3 produtos, ter comprado um único produto bom, pois ao menos agora teria 1 produto funcionando, o que é melhor que zero. Pensando bem, se a disparada meteórica da China depender de mim, eles estão fritos.

Tive uma ideia melhor ainda: se você tem produtos chineses que não funcionam mais, e que provavelmente tiveram vida curta, por que não fazemos uma exposição com eles? Sim, uma exposição que mostrasse o quanto esses malditos produtos chineses são duráveis. Como eles são inúteis, nem precisaria haver um guarda na exposição. Não deixaria de ser uma homenagem à China. Ah, eu gostaria muito. Acho até que poucas exposições seriam tão instrutivas como essa. Comércio também é cultura.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Você Lê Teatro?

A pergunta do título acima pode parecer um pouco estranha. Afinal, teatro não se lê, teatro se vê. Uma ida ao teatro, além disso, é um hábito pouco freqüente. Ler peças de teatro, então, seria uma das últimas atividades culturais imaginadas por você. E, vamos admitir, por 99,99% da população.

A questão é saber por que isso acontece. Uma peça de teatro é geralmente ágil, traz diálogos inteligentes, e é mais curta do que qualquer romance. Ou seja, não se trata de uma leitura difícil. Mas é uma leitura incompleta. O que isso significa? É que feito para ser encenado, o texto teatral não tem longas descrições, nem explica o que está acontecendo. Os personagens têm apenas a sua voz, e tudo deve ser entendido a partir dela. O autor se limita às rubricas, do tipo “Fulano entra em cena”. Sobra para o leitor, assim, o difícil trabalho de imaginar como a cena aconteceria, se os atores estivessem ali. Ou imaginar como seria se fosse um filme.

Mas nada disso é tão difícil. Boas peças podem ser lidas de uma tacada só. A questão é que nunca se criou o hábito de ler teatro. Em qualquer escola, ou universidade, a leitura de peças é rara ou inexistente. E mesmo na Faculdade de Letras da USP (FFLCH), a grande maioria dos professores prefere a análise de poemas, e em segundo lugar de contos e romances. Peças ficam em último lugar. Existem estudiosos como Maria Silvia Betti que dedicam a maior parte do seu tempo à dramaturgia, mas é uma exceção. E com isso o nosso instrumental de análise de peças teatrais é pobre – mesmo entre professores da área de Letras.

No nosso dia-a-dia, contudo, somos consumidores ávidos de dramaturgia – a dramaturgia televisiva, a do cinema e do próprio teatro. Feitas as contas, nenhum outro gênero (poesia ou ficção) alcança um público tão grande. Vivemos assim uma situação paradoxal. O gênero mais consumido é o menos estudado. E por quê? Será que só vale a pena estudar aquilo que é de difícil compreensão? E o que nos é prazeroso -  por exemplo uma comédia – não merece reflexão?

A verdade é que, quando se fala de vida acadêmica, gêneros populares dão pouco ibope. Isso se reflete nos estudos literários e, por conseqüência, em toda a estrutura de ensino. Atualmente os livros didáticos tentam usar os exemplos mais variados, de quadrinhos a notícias de jornal, passando pela MPB, mas ainda assim o teatro fica de fora. Repito: é por falta de hábito, de instrumental de análise. E, com isso, toda a influência que as novelas e filmes têm na disseminação de valores, a força de personagens que mexem com o imaginário da população, tudo isso é menosprezado. E os conceitos lançados por Aristóteles na Antiga Grécia sobre o teatro acabam sendo pouco estudados, e pouco desenvolvidos.

LEIO TEATRO vem corrigir essa falha. Esse livro, presente da minha amiga Lúcia, mostra a importância da publicação – e da leitura – de peças teatrais. Escrito em sua maior parte pelos professores/pesquisadores da Universidade de Brasília, tem no texto de Maria Sílvia Betti um dos seus pontos altos. Mas é preciso lembrar que essa atitude de desdém, digamos assim, em relação ao teatro publicado só vai mudar com uma mudança mais profunda de mentalidade.

Um estímulo para a mudança está no fato de que a leitura de uma peça (em sala de aula, ou qualquer lugar) pode ser muito estimulante para todo um grupo, já que o texto pede uma interpretação. E os que lêem tendem a responder bem à exigência, tornando a leitura em voz alta um acontecimento com alto nível de energia, tanto para ouvintes como para atores, muito mais que a leitura de poemas ou contos. Existem também aqueles que sonham em ser artistas, e que sempre agarram a oportunidade. É, como eu disse, um acontecimento.

Chega de nariz torcido para o gênero teatral – justamente a mais coletiva e dinâmica de todas as artes. O teatro merece estar na sua estante.

P.S. Evidentemente, existem diferenças entre o teatro e o cinema. Mas isso fica para um outro post.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cultura é Tudo, mesmo?



A primeira dúvida a respeito deste blog partiu de um amigo, também professor, Francione Oliveira Carvalho. Suas considerações foram tão interessantes que resolvi postá-las aqui. Sem dúvida, conceitos amplos como ‘Cultura’ e ‘Arte’ sempre terão várias definições. Mas é justamente a discussão sobre essas definições que nos torna mais conscientes, mais ligados. Então, se liga:

“Cultura é tudo? Não tenho certeza. Seria interessante detalhar como compreende o conceito “cultura”, já que desde o seu aparecimento no século XVIII, a idéia moderna de cultura suscita constantes debates.
A palavra cultura tem origem latina e surge nos fins do século XIII para designar uma parcela de terra cultivada. No século XVI, ela deixa de significar um estado (da coisa cultivada), para tornar-se uma ação, ou seja, o fato de cultivar a terra. E somente a partir do meio do século XVI a palavra “cultura” começa a ser aplicada no sentido figurado, como uma faculdade a ser desenvolvida.
Ao longo do século XIX, com a criação da Sociologia e da Etnologia como disciplinas científicas, a reflexão sobre a cultura passa do sentido normativo para o descritivo. Os intelectuais se interessam não em dizer o que deve ser a cultura, mas de descrever o que ela é, tal como aparece nas sociedades humanas.
Apropriando-se da sua reflexão sobre o programa Big Brother, podemos perceber que ele tenta trabalhar a idéia de uma cultura plural, onde cada integrante representaria uma parcela das identidades culturais contemporâneas. Essa idéia de cultura pluralizada, inicia-se apenas no final do século XIX, quando o imperialismo inicia a divisão do globo terrestre (África e parte da Ásia) . Diferentemente do período da colonização (do Brasil, por exemplo), onde o diferente era “acultural”, começa-se a falar das culturas de diferentes nações e períodos, como representantes de códigos específicos.
Nesse sentido a cultura é vista como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. Cultura como forma de expressão e tradução da realidade que se faz de forma simbólica, admitindo que os sentidos conferidos às palavras, às coisas, às ações e aos atores sociais, se apresentam de forma cifrada, portanto, já possuindo um significado e uma apreciação de valor.
Você disse na nossa pequena conversa que pretende utilizar os textos postados para suscitar discussões acadêmicas. Portanto, teorizei um pouco para dizer que senti falta de uma base teórica no seu texto, isso ampliaria um pouco o alcance do que escreve e o tiraria daquele limbo de que “blog” serve apenas para dar pitacos sobre tudo... Ass: Francione Oliveira Carvalho.”

Sem dúvida, essas questões levantadas por Francione são essenciais, a começar pelo fato de que o conceito de ‘cultura’ é histórico. Como se vê, a afirmação “Cultura é tudo” deixa de lado o fato de que certas manifestações culturais são valorizadas, outras não. E por mais que tentemos ser ‘democráticos’ e dizer que aceitamos TUDO como um aspecto da nossa cultura, torcemos o nariz para certas coisas.

E você, leitor, que ‘valores’ coloca nas coisas, como se elas tivessem um preço? Já parou para pensar? O que aceita, e o que rejeita, e do que tem preconceito? Esse talvez seja o melhor caminho para perceber o que até hoje, por condicionamento, por exemplo, nunca considerou como importante. E talvez nem tenha notado...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Desgraça Pouca é Bobagem

O noticiário internacional está repleto de fatos alarmantes. Um noticiário trágico dá lugar a outro ainda mais trágico. Nesse contexto, houve espaço para se divulgar que “inaugurado nesta segunda-feira, o relógio da contagem regressiva para as Olimpíadas de Londres, em 2012, já está quebrado. O cronômetro, em Trafalgar Square, foi desligado”. Um alento para nós brasileiros. Os atrasos, as indefinições, enfim, a incompetência que se prevê para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 não é exclusividade nossa. Os britânicos não foram capazes de fazer um relógio funcionar. Se tivesse acontecido aqui, seria simbólico. E lá, o que significa? Talvez apenas um alívio momentâneo – para nós.

Raciocínios desse tipo parecem guiar o noticiário. Quanto maior a desgraça, maior o interesse, mais se vendem revistas. E o relógio britânico ainda por cima é muito feio. É humano pensar assim? Ver a desgraça alheia nos redime de alguma culpa? Ou então, somos sádicos mesmo?

Alguns fatos me levam a optar pela segunda opção. Não bastasse o rol de desgraças noticiadas, “a Autoridade de Segurança Nuclear da França (ASN) informou que as explosões ocorridas na central japonesa de Fukushima Daiichi atingiram o nível seis de gravidade em uma escala internacional que vai até sete. O Japão, até o momento, classificou os acidentes em nível quatro”. OK, é possível que eles tenham razão. Mas divulgar essa informação quando, obviamente, as autoridades japonesas tentam evitar o pânico, o desabastecimento, o deslocamento em massa da população, serve para quê?

Você que é ser humano que responda. A França, afinal, está bem longe do Japão para se julgar atingida pelo desastre. Ou será que ver circo pegar fogo é a única fonte de emoção em um mundo já bastante pacificado e monótono? Ou talvez eles julguem que têm o dever de informar? O momento atual me lembra o ataque de 11 de setembro. Uma certa histeria permeia os fatos, com a sensação algo apocalíptica de que o mundo está a beira do colapso. Aliás, a Comissão Europeia acaba de usar a palavra ‘apocalipse’ para descrever a situação no Japão. Simpático, não?

Sim, isso é humano. Todas as civilizações imaginaram o fim dos tempos, o fim de tudo, e previram como seria - com água, fogo, meteoros e agora com radioatividade. Está lá na Bíblia. Do ponto de vista científico, trata-se de mais um motivo para não se fazer alarde, pois a principal característica da ciência é sua fria isenção, seu apego à realidade dos fatos – essa sua radical diferença em relação à religião. Pois é. Mas pelo visto até os cientistas são humanos.

Como todos nós vamos morrer um dia, é melhor ir acompanhado. Melhor ainda é antecipar a data e fazer disso um acontecimento coletivo, assim não precisamos pensar que vamos deixar um monte de coisas para trás – coisas que os outros poderiam aproveitar. Humano, sim, demasiadamente humano...






sábado, 12 de março de 2011

Será Que Ele É?


Rodrigão

Já que comecei este blog falando do BBB 11, faz sentido dar alguns toques a respeito deste que é um dos mais importantes programas na história da televisão brasileira.
Não, não tenho tempo de acompanhar as peripécias dos ‘confinados’, dou aula à noite, mas sei de tudo. Em qualquer site na Internet há notícias bastante significativas, do tipo “Fulana se irrita com Beltrano”. Se todos os sites dão a notícia, quem vai negar que é importante? Das novelas fala-se muito menos.
Duas pessoas chamaram a atenção do público. De Rodrigão, pergunta-se: será que ele é? De Maria, pergunta-se: será que ela é? No primeiro caso, gay, no segundo, garota de programa. E o melhor – ou pior – é que provavelmente as perguntas não serão respondidas, ficando à revelia do espectador a resposta. É uma obra aberta, na concepção de Umberto Eco. Aliás, Umberto Eco foi um dos intelectuais que escreveu sobre o BBB, eu não estou sozinho, viu?
A delícia da vida – e desse programa – é nunca se vai ter certeza de nada. Para fazer um paralelo, no resto da dramartugia televisiva (sim, novelas, de novo) a gente não só tem certeza, como já sabe o que vai acontecer. No caso de um personagem mudar sua orientação sexual, isso é avisado antes. No BBB, temos pistas, apenas pistas. Ninguém está se escondendo por mau-caratismo, é que talvez eles mesmos ainda não saibam. Cheguei a ver Rodrigão dando beijos numa bela loira, mas sem vontade nenhuma. Ela disse, ao sair, que já tivera beijos melhores – mas se apressou a garantir que ele não era gay. Foi o que bastou para arder a fogueira das especulações. Quanto à Maria, é a personificação de Helena, de Sonhos de uma Noite de Verão, de Shakespeare. Helena declara seu amor de maneira asfixiante e obsessiva a Demétrio (“desprezai-me, batei-me, esquecei-me, perdei-me, mas, por indigna que seja, permiti-me, ao menos, que vos siga.”). Maria vai além e faz um strip-tease... tirando a calcinha. Bem...

Helena e Demétrio, ou melhor, Maria e Mau-mau.

O segredo está aí. Não basta assistir ao programa, é preciso viver o programa. Sabe o que é pay-per-view?  Tudo são relações. E afinidades. A vida não é assim? Se no começo tudo parece artificial, aos poucos os conflitos se tornam bem convincentes, pois nada é mais natural do que as dificuldades de relacionamento com pessoas próximas, amigos, colegas, família. Pessoas de personalidade indefinida, seres mutantes, aquele amigo talvez interesseiro, o colega que só te cumprimenta por obrigação, antipatias inexplicadas. Como diria Sartre, o inferno são os outros. O telespectador pode dar vazão a seus instintos mais primários, principalmene porque sempre vota contra alguém. Elimina o chato que na vida não pode eliminar.
Na área da Publicidade, existe o Focus Group: um grupo de pessoas se reúne para falar sobre determinado produto. Do outro lado de um vidro, estão os profissionais da empresa, observando. Sabores, embalagem, textura, tudo pode ser avaliado. Mais que isso, porém, a mesma estratégia pode ser usada para detectar tendências, hábitos, comportamentos, direções. As empresas precisam saber com antecedência em que direção orientar seus esforços; o ato de observar é o único que pode trazer um vislumbre dessa coisa terrível chamada futuro, com as mudanças que ele implica.
Deu para entender? Imagino que esses profissionais de ‘tendências’ amem o BBB. Está tudo ali. Mesmo com as reclamações, há novidades. E talvez a maior seja a queda das fronteiras e das identidades. Os limites entre o ser e o não-ser estão embaçados, quase deixando de existir. Será que essa é uma tendência?
E por falar em futuro, quem vai ganhar o BBB? Sabemos que não será o mais inteligente, nem a mais bonita. É o carisma que define o vencedor. E o que é carisma? Algo indefinível, mas que agrada as pessoas, algo que elas desejam ter, algo que elas aspiram. Por isso, vale apostar. Teste a sua sensibilidade. Teste sua percepção. Saiba se está antenado (a) com o momento. Eu aposto, nesta ordem: 1.Rodrigão, 2.Daniel, 3.Paulinha. Duvido que algum outro ganhe o programa. E darei a mão à palmatória se errar. As fichas estão na mesa.

domingo, 6 de março de 2011

O Jeitinho Brasileiro

Pois é. Como tudo na vida, o jeitinho brasileiro pode servir ao bem e ao mal.
O jeitinho, que tanta gente julga a ‘cara’ do Brasil, nada mais é do que um desvio da maneira usual de fazer as coisas, o que geralmente implica a quebra de regras. Não deu para pagar no prazo? Chore, esperneie, diga que foi tirar o pai da forca, quem sabe te deixam pagar sem multa, comovidos com o seu drama.
Isso vale para os políticos. Foi filmado com o dinheiro do povo nas mãos? Uma pequena mudança nas regras do Conselho de Ética da Câmara pode adiar o julgamento para depois do fim do mandato, o que significa que fica tudo por isso mesmo. Conveniente, não?
O jeitinho tem a ver com o ‘levar vantagem em tudo’, lei de Gérson. Ou pode ser explicado assim, na época do Brasil Império: “Aos inimigos, as leis; aos amigos, tudo”. Deu para entender porque as leis não pegam? É comum, num curto trajeto de carro, ser cortado por alguém que faz uma conversão proibida, ou vem pela contra-mão, só um pouquinho. E a vida começa a se tornar impossível, ou no mínimo estressante.
Turistas brasileiros são vistos no exterior com desconfiança. Eles já sabem que os brasileiros vão driblar as regras, por achar que ‘no final dá tudo certo’. Sendo assim, para que aprender e respeitar os costumes locais?  O jeitinho brasileiro é justamente a garantia de adaptação a qualquer cenário, e muitos se orgulham disso. Ir para a Europa e trabalhar ilegalmente é visto como normal. Em Portugal, isso já é um problema endêmico, e o Brasil está exportando ‘guardadores de carro’ para esse país. Na Inglaterra, um guia feito pelo governo para a Olimpíada de 2012 afirma que os brasileiros são folgados, falam alto e sempre se atrasam.
Mas há o lado positivo. É o que mostra a foto acima. Minha amiga Karin fez uma instalação na sua impressora para não comprar os caríssimos cartuchos de tinta. E como tem de imprimir centenas de páginas por mês, calcula que gasta menos de 10% do que gastaria normalmente. Economiza mais de 3.000 reais por ano. Esse é o jeitinho que aprecio: quem quer pagar por tinta como se fosse ouro líquido? Essa esperteza das empresas é que precisa ser combatida, isso sim. Ou seja, a criatividade pode ser nossa aliada. Se essa história fosse uma fábula, a moral seria: O pequeno usa a astúcia para se defender da tirania dos grandes.
Agora, que é difícil imaginar um Brasil nos trilhos com tanta gente roubando e dando um jeitinho, isso é. Fica a dica: a adaptação de impressoras é feita em lojas da Santa Efigênia e não tem nada de ilegal.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

LIXO MILIONÁRIO

  
É hoje! Ou melhor, amanhã.  O Brasil ganha ou não ganha o Oscar?
Basta ter um filme com personagens brasileiros para começar a torcida. Mesmo a diretora sendo inglesa. Mas o personagem central é Vik Muniz, artista aclamado internacionalmente. Se depender de fama, reconhecimento, o filme tem chances, mesmo não sendo o mais cotado.
Na Idade Média, o grande sonho do homem era transformar chumbo em ouro. Hoje, transformar lixo em ouro já é uma realidade - para poucos. Vik Muniz conseguiu a proeza, tirando fotos dos catadores no aterro sanitário e compondo imagens com sucata. Mas basta ver o filme para entender que o verdadeiro tesouro não são as obras em si mesmas, mas o elemento humano que as compõe. O preço da venda dos quadros embute esse ‘custo social’, em uma época em que tanto a questão ecológica quanto a social têm um peso grande na consciência dos compradores.
O maior mérito do filme é esse: mostrar uma comunidade que se formou naquele local, contra todas as expectativas. As pessoas que a compõem têm em comum a postura altiva, orgulhosa mesmo, a despeito de todo o preconceito que sofrem por estarem ali, dividindo o espaço com urubus. As mulheres, por exemplo, insistem que preferem esse trabalho a enveredar pela prostituição. E a plena consciência de que estão ajudando o meio-ambiente com a reciclagem dignifica suas dificuldades. Em outras palavras: o ouro já estava ali, latente, apenas oculto pelos dejetos.
A luta é árdua. E o filme se transforma em uma história de superação – o que, por sinal, combina muito com Hollywood. A melhor cena é a do presidente da Associação dos Catadores, Tião, que vai a Londres acompanhar o leilão do ‘seu’ quadro (o mesmo do poster). O assombro em seus olhos diante dos incontáveis lances que vão tornando a obra cada vez mais cara é antológico. É o momento da transformação. Essa, aliás, é uma das dúvidas levantadas pelo filme: vale a pena tirar as pessoas de seu habitat, levá-las para Londres, deixá-las deslumbradas com um mundo rico e cheio de glamour? Tião disse que pretende ir à festa do Oscar de limusine (veja aqui), e sinceramente não tenho uma resposta.
O ponto fraco do filme é a insistência de Vik Muniz em se apresentar como pessoa pobre, que passou grandes dificuldades até chegar ao sucesso internacional. OK, isso poderia ser dito, mas há uma distância entre ele e os outros pobres do filme. Vik não pertence a essa comunidade, e um indivíduo nunca vai ter a força de um grupo. Além disso, o que passou, passou. Lamúrias sobre o passado não têm nem um décimo da força das imagens do lixão – até mesmo porque é duplamente através das imagens (dos personagens em seu cotidiano e dos quadros feitos a partir deles) que o filme se realiza.
Mas a gente torce. Basta dizer Brasil, a gente está torcendo.